Campo Grande, Terça-Feira , 12 de Dezembro - 2017


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Falando Nisso

Autor: Marcia Scherer (*) , 30 Novembro 2017 às 15:30 - em: Falando Nisso

Quem aí já escutou a Anitta? Não estou perguntando quem ouviu suas músicas, estou perguntando quem escutou o que ela tem para falar, em entrevistas, nas letras de seus sucessos. Você já a escutou?
 
Me incomodou muito essa polêmica sobre a Mulher do Ano, onde várias pessoas julgaram que a cantora, empresária, mulher, Anitta não merecia o título.
 
Eu gosto da Anitta. Pra mim ela personifica um novo tipo de feminismo, se é que posso falar assim. Ela é dona do seu nariz, devidamente moldado por um procedimento cirúrgico, fala o que pensa e, principalmente, pensa. Ela é uma mulher estratégica, sua carreira é conduzida por ela mesma, todos os seus passos são medidos milimetricamente. A carreira vai bem, obrigada, inclusive cruzando fronteiras.
 
Ah Marcia, mas ela vive de explorar o corpo, é uma mulher objeto. 
Objeto de quem?
 
Dela mesma, meus queridos. Observem a letra do sucesso que a lançou, Show das Poderosas: "Se não tá mais à vontade, sai por onde entrei | Quando começo a dançar, eu te enlouqueço, eu sei | Meu exército é pesado, e a gente tem poder | Ameaça coisas do tipo: Você!"
 
Essa letra, que é dela, é tipo um foda-se, eu faço o que eu quiser, se não gostou vaza!
 
Tem também a letra de 'Na sua cara', sucesso internacional: "Se você não vem, eu vou botar pressão | Não vou te esperar, tô cheia de opção | Eu não sou mulher de aturar sermão |Me encara, se prepara | Que eu vou jogar bem na sua cara". Definitivamente Anitta não é do tipo de mulher que é usada. É ela quem usa.
 
Uma das coisas que admiro na Anitta é sua capacidade de resposta. Ela usa a impulsividade típica da juventude com maestria, transformando o que na boca de outras pessoas da sua idade seria um desastre, em verdadeiras aulas de humanidade e inteligência.
 
Aliás, Anitta, como todo jovem, é habitue das redes sociais e parece estar sempre ligada em tudo que envolve seu nome, interagindo e respondendo na lata às críticas e às mentiras.
 
Recentemente um pastor e vereador do Rio de Janeiro a chamou de "vagabunda de quinta" em suas redes sociais. A resposta da artista veio rápida e certeira, confira alguns trechos da resposta: "Sou cantora, empresária, compositora, coreógrafa e outros negócios (que não são da indústria pornográfica) mas que são tantos que teria que ficar algumas horas aqui escrevendo. Dou emprego pra aproximadamente 50 famílias diretamente... Sei como é importante e estratégico usar um nome de notoriedade na mídia para ganhar e espaço e assim começar a divulgar seu trabalho próximo ao ano eleitoral". E a repercussão negativa ao pastor vereador crítico foi tanta que ele se viu obrigado a pedir desculpas (bem feito, quem mandou julgar).
 
Anitta nasceu Larissa, cantava desde os oito anos em um coral da igreja católica, fez curso técnico de administração e já estagiou na Vale. Sempre lutou pela carreira e foi no funk que fez sucesso.
 
Sei que muitas das críticas negativas contra ela vêm do uso e abuso da sensualidade em sua carreira. Ela usa roupas provocantes, que mostram tudo e um pouco mais, ela rebola e se movimenta de um jeito que chega a ser lascivo e as letras da maioria das suas músicas não são das mais pudicas.
 
Mas como já a ouvi falando, esse é o nicho que ela escolheu para fazer sucesso, porque ela admite que sempre quis ter sucesso, mais um ponto pra ela, não é hipócrita.
 
Muitas dessas críticas em relação ao vestir e dançar da cantora vêm do fato da nossa sociedade não admitir que uma mulher decida o que quer ser, porque Anitta não é mulher manipulada ou subjugada, ao contrário, ela se veste, fala e age como bem entende.
 
Pra mim esse julgamento é o mesmo que ocorre sobre todas as outras mulheres: se ganhou aumento deve ter dado pro chefe; olha só a roupa dela, depois reclama se for estuprada; essa mulher é uma louca, gritou comigo porque eu a interrompi; e por aí afora.
 
Assessoro uma advogada, política, que tem uma personalidade forte, a dra. Ritva. Ela é uma mulher que está sempre de salto alto, decotes, roupas justas, é uma mulher exuberante. Algumas pessoas (homens) já vieram me falar que tenho que mudar o jeito dela, onde já se viu política de salto alto, daquele jeito. Mas gente, ela é assim, é o que a faz única e é o que a diferencia e não vamos mudar nenhuma mulher porque alguns homens acham que ela não deve ser assim. Jamais!
 
Entenderam a relação com a Anitta? A mulher conquistou sucesso, dinheiro, tudo com seu talento artístico e sua visão empresarial, aí a sociedade vem dizer que ela não merece prêmio e o que é mais cruel ainda, vem querer comparar com a professora que morreu salvando crianças, como se só uma mulher no mundo pudesse ser homenageada. Como se só quem segue o papel que a sociedade quer de mulher (professora, cuidando e salvando crianças) pudesse ser digno de prêmio.
 
Gente, é óbvio que a professora merece todas as homenagens do mundo, foi uma heroína. Mas a Anitta também merece, ela é, sim, digna de receber prêmio, ela merece respeito. É injusto e cruel comparar as duas mulheres.
 
Então antes de odiar a Anitta, escute o que ela tem a dizer, sem preconceitos, sem se ater apenas ao que ela canta (que não faz meu estilo), à roupa que usa. Deixe o preconceito de lado e escute a empresária, a artista de sucesso, a mulher do ano, você vai se surpreender e, provavelmente, vai concordar que ela também merece o prêmio.
 
(*Marcia Scherer, publicitária e especialista em marketing político é sócia do Bureau de Planejamento, é briguenta, fala o que pensa e ama Campo Grande)



Autor: Odilon de Oliveira (*) , 20 Novembro 2017 às 10:15 - em: Falando Nisso

A neurologia define a microcefalia como sendo sequelas causadas por doenças transmitidas pelo mosquito aedes aegypti (vírus da zika). O normal desenvolvimento do cérebro é profundamente prejudicado. Gera invalidez e necessidade de permanente acompanhamento. Logo, a mãe responsável por essa vítima não pode trabalhar.
 
A Constituição Federal garante para a vítima de microcefalia, com qualquer idade, o pagamento de um salário mínimo mensal. É um benefício assistencial (artigos 203, V, e 227, § 1º) e deve ser pago enquanto durar a invalidez.
 
A Lei n. 13.301/2016 limitou a três anos o pagamento dessa ajuda financeira, devida a contar do término do auxílio-maternidade, que, no caso, é de 180 dias. Todavia, essa limitação é inconstitucional, pois é dever do Estado garantir assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem. Esse mesmo dever se estende ao adulto inválido que não tenha meios de subsistência.
 
As famílias responsáveis por vítimas de microcefalia têm direito a especial proteção do Estado brasileiro, omisso que foi e continua sendo em políticas preventivas. Se tivesse havido prevenção pelo Poder Público, através de orientações de eliminação do mosquito e de fornecimento de simples repelente, o problema não existiria ou teria sido mínimo.
 
Alguém se lembra das vítimas da talidomida, síndrome ocorrida por culpa do Poder Público? O Brasil teve que indenizar as vítimas através do pagamento de uma pensão vitalícia (Lei n. 7.070, de 1982).
 
Busque seus direitos. Vá ao INSS.
 
Favor compartilhar.
 
(*Odilon de Oliveira é juiz federal aposentado, em Campo Grande)



Autor: Odilon de Oliveira (*) , 09 Novembro 2017 às 15:45 - em: Falando Nisso

Dois anos atrás, em 2015, de acordo com o Conselho Nacional de Justiça, órgão máximo da administração do Poder Judiciário, a justiça brasileira gastou R$ 79.200 bilhões, tacando para cada pessoa, desde zero ano de vida, 386 reais por ano. Naquele ano, o orçamento da União chegou a R$ 2.382 trilhões. Significa dizer que o Poder Judiciário, incluindo a justiça estadual, gastou 3,32% do equivalente ao orçamento da União.
 
Em torno de 89% se destinaram ao custeio da folha de salário de magistrados e de todos os servidores, federais e estaduais, incluindo diárias, pensões, vantagens e aposentadorias.
 
A justiça dos Estados gastou 56,4% dos R$ 79.200 bilhões. A justiça federal, incluindo os cinco Tribunais Regionais Federais, consumiu R$ 9.977 bilhões ou 12,6% daquele valor, e arrecadou R$ 24 bilhões (240% do que gastou): R$ 91,5 milhões em custas processuais e R$ 23,9 bilhões em execuções fiscais.
 
Nessa arrecadação da Justiça Federal não estão incluídos os ativos recuperados da criminalidade, que, no Brasil inteiro, alcança enorme fortuna. Só a vara federal de lavagem de Mato Grosso do Sul (3ª vara),  titularizada pelo juiz Odilon, nos últimos dez anos, sequestrou e confiscou um patrimônio estimado em R$ 2 bilhões.
 
Isto não significa afirmar a repugnante existência de dois sistemas penais: um para a elite, onde residem também os feitores da lei, e outro para o pobre. Aquele que, normalmente integrante da elite econômica, frauda uma licitação de milhões, mediante pagamento de propina, está sujeito a uma pena de 2 a 4 anos. Todavia, o faminto que arromba uma padaria e furta pães e manteiga pode receber entre 2 e 8 anos de prisão. No primeiro caso, a vítima é toda a sociedade. No segundo, responde pelo prejuízo apenas o dono da padaria.
 
Há muita coisa a ser mudada no sistema penal brasileiro.
 
(*Odilon de Oliveira é juiz federal aposentado em Campo Grande)



Autor: Reinaldo Dias (*) , 07 Novembro 2017 às 13:30 - em: Falando Nisso

O que os populismos têm em comum é um estilo de governo pautado pelo improviso que não consolida estruturas permanentes de sustentação econômica, pois baseia-se na distribuição de benefícios que tem como contrapartida o apoio eleitoral. O resultado disso são o colapso das instituições e da economia que desembocam no aumento da inflação e no desemprego.
 
O discurso populista é simplista e maniqueísta e se centra na luta de “nós” contra “eles”. No discurso de Lula, por exemplo “nós” são os trabalhadores e “eles” são as elites. No discurso de Bolsonaro, “nós” são as pessoas de bem, e “eles” são todos aqueles que não se identificam com essa categorização (negros, imigrantes, gays, políticos corruptos, ongs, mulheres não submissas, outras religiões). O povo, é identificado como aquele segmento da população ao qual dizem representar; os demais são inimigos do povo. A liderança populista não é institucional, mas pessoal, despreza as instituições democráticas; não é racional, mas movida por emoções que utiliza para enganar seus adeptos; não é pluralista e prega sempre uma pretensa unanimidade associada à palavra povo.
 
A prática populista opõe-se às instituições democráticas como a imprensa livre, a divisão de poderes e principalmente, a autonomia do judiciário. Nenhum sistema democrático está imune ao risco do populismo, que pode ter origem tanto à esquerda quanto à direita do espectro ideológico.  A desestruturação institucional, a perda de legitimidade, da eficácia e da credibilidade das instituições democráticas, a degradação do estado de direito e a corrupção constituem o caldo de cultura do qual se alimenta o populismo.
 
Políticos populistas são vendedores de ilusões no mercado eleitoral, prometem um futuro melhor para as massas empobrecidas em troca de apoio nas eleições. No poder distribuem benesses com o objetivo de manter-se apoiando políticas improvisadas que visam tão somente trazer-lhes benefícios.  Os mais ricos que apoiam essas ações têm a expectativa de que as multidões sejam iludidas e controladas para que mantenham suas estruturas de dominação, como vimos recentemente ocorrer no Brasil com grandes empresas – empreiteiras, bancos, indústrias -  apoiando e sustentando o populismo de esquerda.
 
Historicamente, na América Latina as lideranças populistas sempre mostraram mais afinidade por políticas de esquerda. No entanto, recentemente tem surgido líderes populistas que manifestam ostensivamente sua identificação com políticas de extrema direita. No Brasil o exemplo é Jair Bolsonaro, declarado candidato presidencial e apontado nas recentes pesquisas nacionais de intenção de voto em segundo lugar e em primeiro lugar em estados como o Distrito Federal e o Rio de Janeiro. Suas propostas de conteúdo xenofóbico, machista, racista, contrário à imigração e a diversidade cultural são de tal forma extremistas que muitos se surpreendem que obtenha tanto apoio.
 
As pesquisas eleitorais, mesmo que prematuras, indicam que o populismo atrai ainda importantes segmentos da população, as últimas mostram que Lula e Jair Bolsonaro juntos aparecem com até 50% das intenções de voto. Caso Lula não se viabilize como candidato, Bolsonaro assume a dianteira. Num cenário com múltiplos candidatos, aumentam as chances de a extrema direita ir para um segundo turno difundindo e dividindo o eleitorado com uma plataforma de ódio.
 
A população está cansada dos políticos e das elites empresariais que levaram o país à bancarrota com baixo crescimento econômico, aumento da desigualdade, corrupção, impunidade etc. A pergunta que mais se faz nas ruas é, em quem votar? De fato, estão dadas as condições para que o populismo de extrema direita cresça.  A possibilidade de que aconteça o pior não pode ser descartada. Depois que Trump foi eleito em uma das mais importantes democracias ocidentais, tudo é possível.
 
(*Reinaldo Dias é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Sociólogo, doutor em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política pela Unicamp. É especialista em Ciências Ambientais)



Autor: Odilon de Oliveira (*) , 06 Novembro 2017 às 11:00 - em: Falando Nisso

Trabalhei durante mais de meio século e me aposentei recentemente. Vou para a política não para compactuar com políticos despidos de valores éticos, mas para me juntar aqueles que cultivam esses princípios.
 
O primeiro passo é a filiação a uma agremiação política, mas lembrando a todos que o maior partido continuará sendo a minha consciência. Não serei de esquerda nem de direita, ou de centro. Aliás, essa divisão engrossa interesses grupais e fere os princípios administrativos da continuidade e da eficiência. Continuidade não se confunde com continuísmo.
 
O Brasil tem vários cultos religiosos, mas todos falam de um único Deus. Tem vários partidos políticos, e todos devem ter o mesmo objetivo fundamental: o bem-estar do povo. Então, para que esquerda e direita? A harmonia, com essa visão, não é bem melhor?
 
(*Odilon de Oliveira é juiz federal aposentado, em Campo Grande)



Autor: Wagner Cordeiro Chagas (*) , 23 Outubro 2017 às 13:15 - em: Falando Nisso

Cinco horas e trinta minutos da manhã de segunda-feira, acordei para mais um dia de trabalho. Como de costume deixei a esposa e filha dormirem mais alguns minutos e fui fazer o café. Enquanto esquentava a água liguei a TV e comecei a sintonizar os telejornais. No primeiro, um susto. As imagens mostravam cenas de carros de combate, caminhões, aviões e helicópteros das forças armadas; viaturas de polícia e muitos militares nas ruas de todas as capitais brasileiras. Nas letrinhas miúdas que aparecem na parte inferior do televisor lia-se “Militares depõem o presidente da República Michel Temer, o presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, e o presidente do Senado Eunício Oliveira. Tudo foi planejado no final de semana”. Meu Deus! Um novo golpe militar? Uma nova ditadura no Brasil? Sim! Não tinha mais jeito. Também pudera, com um monte de gente sem conhecimento histórico clamando pelo retorno dos generais ao comando do País.
 
Preocupado, corri para o quarto e acordei minha esposa para dar a triste notícia. Somos professores de História e amantes da democracia e da justiça social. Sempre comentávamos em casa, nas escolas, o perigo de um retorno dos métodos bárbaros e criminosos que acompanham uma ditadura militar. Naquele momento a água para o café fervia e junto com ela minha cabeça, devido às preocupações com o futuro da nação, dos movimentos sociais em defesa dos excluídos, da minha pequena Ana Clara, com o meu futuro. Logo eu que sempre escrevi artigos criticando ditaduras de esquerda e de direita, publiquei um livro onde descrevi sobre alguns aspectos do regime militar por aqui. Eu que milito no sindicato de trabalhadores da educação. Veio-me a mente os companheiros dos SIMTEDs e da FETEMS. O que vai ser desse povo? Companheira Mariquinha, coitada. Pequena de estatura, mas grande na coragem para lutar. Um soldado sozinho a leva para o camburão.
 
Seguimos para o trabalho. Quando passávamos pela Avenida 9 de Julho fiquei ainda mais estarrecido, várias pessoas a desfilar em seus carros, motos, bicicletas, caminhões. Muitos deles a exibir adesivos e cartazes com a inscrição “Bolsonaro 2018”. Entre os gritos daquele povo, ouvia-se: “acabou a corrupção!” “Fora Temer!” “Lula na cadeia!” “Morte ao PT!” “Volta escravidão!” “Fora Bolsa Família!” “Superioridade do povo branco!” Que loucura.
 
Ao chegarmos à escola as forças policiais cercavam-na. “Por enquanto nenhum funcionário entra!”, dizia um agente. Fiquei sabendo que só iríamos entrar após a realização de um levantamento ideológico de cada profissional. Era o projeto da escola sem partido em seu primeiro dia de funcionamento. Os estudantes, a maioria deles, ainda bem, estavam preocupadíssimos com aquela situação. Outros vibravam e exclamavam: “Eu falei, um dia essa bagunça iria acabar!”. “Agora vocês vão ver o que é bom!” “Somos patriotas!” “Fora comunistas!” Era o fim da picada.
 
Naquele dia as notícias surgiam a todo instante. Informações desencontradas, ninguém se entendia. A situação ficou mais séria quando todos os telejornais entraram ao vivo para anunciar o novo presidente da República, ou melhor, os novos presidentes da República. O Brasil passaria a ser administrado por 3 homens poderosos das forças armadas. Empossados, a primeira medida tomada por eles foi bloquear, com exceção dos presidentes, por tempo indeterminado, a internet. No interior das emissoras de rádio, televisão, jornais impressos e eletrônicos policiais vigiavam tudo. As notícias só seriam divulgadas após a comissão da censura averiguar os textos, imagens, áudios e vídeos.
 
Às onze horas e trinta minutos fomos dispensados da escola.  Tentei acessar a internet, mas o sistema estava fora do ar. Na TV o Jornal Hoje cobria o golpe de 2017. Ao final dele a parte que me preocupou ainda mais. Um dos presidentes acabara de dar uma notícia extra, a de que a partir das 13 horas começariam as prisões dos militantes de esquerda moderada e radical, fosse de partido político ou sindicato, e também de todos aqueles que defendessem liberdades individuais e mecanismos para reduzir a concentração de renda no Brasil, sem necessariamente se posicionar à esquerda. As casas destes seriam invadidas e, principalmente os computadores, tablets e celulares seriam levados para as delegacias para serem periciados. Meu coração quase salta pela boca. Lembrei-me que no meu PC havia um acervo de vídeos do PCB-MS, os quais me foram repassados por meu ex-orientador do mestrado para serem catalogados e arquivados no Centro de Documentação Regional da UFGD. E agora?!
 
De repente ouço um barulho. Minhas pernas tremeram. Era o despertador do celular. Eram cinco horas e trinta minutos da manhã. Hora de acordar para mais uma vez lecionar História. Ufa! Que alívio! Foi apenas um sonho. Sonho? Um pesadelo! E que pesadelo. Que bom, apesar de bem surrada, nossa democracia ainda respirava.
 
Qualquer semelhança entre este texto e uma possível realidade futura parecida com a que foi descrita aqui pode não ser mera coincidência. DITADURA NUNCA MAIS!
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)



Autor: Wagner Cordeiro Chagas (*) , 18 Outubro 2017 às 12:45 - em: Falando Nisso

Uma curiosidade nascida nos bancos escolares pode mudar para sempre a vida de um estudante. Foi o que aconteceu comigo. No ano de 2002, quando cursava o 2º do ensino médio na Escola Estadual Izabel Mesquita, da cidade de Fátima do Sul, minha turma participou de um projeto de pesquisa, as saudosas aulas de projeto, política da Secretária de Educação da gestão Zeca do PT. Naquela empreitada, professores, coordenação, direção escolar, funcionários administrativos e comunidade uniram-se para nos auxiliar nos trabalhos que deveríamos fazer a respeito da história de Mato Grosso do Sul. Lembro-me que o grupo do qual participei ficou responsável por tratar da temática dos governadores deste estado. O resultado foi excelente e para mim algo que despertou curiosidade pela história política estadual, além de me levar a ter uma visão diferenciada da política e suas dinâmicas.
 
Ao longo daqueles meses de aulas e pesquisas entrei em contato com duas referências bibliográficas a respeito da história sul-mato-grossense. A primeira, um livro, do pesquisador Hildebrando Campestrini, “História de Mato Grosso do Sul”, e a segunda, um texto da historiadora Marisa Bittar, intitulado “Uma Breve História de Mato Grosso do Sul (1977-1999)”.
 
Naquele mesmo ano, um evento marcou minha vida e meus ideais: as eleições gerais no País. Eu já havia participado, aos 16 anos de idade, de uma eleição municipal, a do ano 2000. No entanto, 2002, foi quando dei meu primeiro voto para os cargos de presidente, governador, deputado federal, deputado estadual e senador. Fiquei encantado pelos ideais de esquerda moderada do PT e votei em 4 candidatos do partido: entre eles Lula para presidente e Zeca para o governo.
 
Poder participar daquele momento histórico da chegada de um operário e retirante nordestino ao cargo máximo do Brasil foi sensacional. A partir daquele momento estava decidido a participar das discussões políticas, pesquisar, ler mais a respeito. Gostava muito de conversar com seu Toinzinho, um vizinho, trabalhador rural, com uma história de luta e muitas esperanças de um Brasil justo para todos os seus filhos. Tudo isso associado às minhas origens humildes, filho de proletários urbanos, levaram-me a inclinar pelos ideias de esquerda moderada, onde pude acreditar ser possível melhorar a vida dos mais humildes, dos excluídos de uma nação, sem necessariamente derrubar um sistema, confiscar propriedades particulares ou implantar ditaduras sanguinárias em nome de um ideia.
 
No ano de 2005 veio o ingresso no curso de Licenciatura em História da então UFMS de Dourados, atual UFGD. Lá pude encontrar novos caminhos para a pesquisa histórica, e o que é mais importante aprender a pesquisar de fato, seus métodos, seus teóricos, as dificuldades e as satisfações de ter uma pesquisa concluída, publicada, compartilhada. Entrei em contato com o Centro de Documentação Regional da Faculdade de Ciências Humanas (CDR-FCH/UFGD), local de riquíssimo acervo sobre diversos aspectos de Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, como jornais, fotos e livros.
 
Iniciei as primeiras pesquisas em 2007, quando passei a conviver com documentos oficiais do Estado, como as Atas da Assembleia Legislativa e os Relatórios dos Governadores de Mato Grosso do Sul, além do acervo dos jornais O Progresso, Correio do Estado, Diário da Serra e Diário MS. Aos poucos essas pesquisas levaram a outras, até culminar na minha pesquisa de maior amplitude: o trabalho de mestrado, defendido em 2014, referente à primeira eleição direta para governador de nosso estado, ocorridas no ano de 1982. A pesquisa esteve sob orientação de um baita intelectual e meu grande amigo Paulo Roberto Cimó Queiroz.
 
Encerrado o período de 9 anos na universidade continuo inspirado e com desejos de conhecer melhor a respeito de nosso estado. Devido a isso, iniciei em abril deste ano uma série de artigos a respeito das características de cada administração sul-mato-grossense. É importante ressaltar a necessidade de se conhecer nossa história política, pois os processos políticos influenciam na vida de todos nós cidadãos. Nestes textos procuro mostrar a participação não apenas dos gestores nos destinos do estado, mas também da nossa população.
 
Assim, pretendo continuar a colaborar com a produção de conhecimento sobre a história política de Mato Grosso do Sul e se possível despertar a curiosidade de outros estudantes como ocorreu comigo. Nestes 40 anos de criação desta unidade federativa é importante também que as autoridades políticas reforcem seus compromissos com a educação para proporcionar o despertar da curiosidade em todos os nossos estudantes e com isso formar cada vez mais uma geração de cidadãos e cidadãs que vejam os estudos não apenas como meio de satisfação profissional, mas também como caminho da construção de uma sociedade mais justa e humana.
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)



Autor: Rosemeire Farias (*) , 14 Outubro 2017 às 14:30 - em: Falando Nisso

Hoje parei para refletir sobre esta data, 15 de outubro, dia em que se comemora o "Dia do Professor".
 
Muitos pensamentos passaram pela minha mente, porque, afinal, já estou na docência há 25 anos.
 
Vi muitas pessoas ingressarem nesse mundo, acreditando que conseguiriam reinventar a roda. Todavia, diante dos obstáculos, vi-os retroceder e desistir da carreira.
 
Eu continuo firme, recuso-me a deixar-me vencer pelas dificuldades e desilusões. A principal delas é a falta de reconhecimento de uma significativa parcela da sociedade, que parece pensar que qualquer um pode ser professor, que qualquer um sabe opinar e discutir sobre educação. 
 
Falo isso porque vi e vejo pessoas assumindo a função de professor para preencher o seu tempo livre e ganhar um extra. Estes, por um descuido, estão professores, não são professores.   
 
Fico triste ao me deparar com esses casos, porque para mim a docência é uma espécie de entrega. Ela envolve uma relação de amizade, de carinho, de renúncia e, sobretudo, de amor. Amor pelos livros, pelo conhecimento, pela escola, pela sociedade e pelo aluno, que é quem mais sente o resultado da "entrega do seu professor".
 
Então, não é um bico, é uma profissão que só exerce aquele que está disposto a enfrentar todos os obstáculos e as dificuldades.
 
Nunca me agarrei ao fator econômico (não que ele não seja importante), porque sempre soube que jamais ficaria rica monetariamente sendo docente. Eu sempre me agarrei à satisfação e ao sentimento de realização que tenho quando encontro um ex-aluno(a), que me abraça e diz: "Professora, não me esqueço da Senhora! A senhora foi muito importante na minha formação, ensinou-me a ver o mundo e a não retroceder diante das dificuldades. Fez-me acreditar em mim, por isso eu te amo!".
 
Alguns profissionais podem até pensar: 'que idiotice é essa da Rosemeire'. Mas não me importo com isso, porque para mim a maior riqueza que pode existir é o amor que despertamos nas pessoas. E aquele que é professor com o coração só pode despertar esse sentimento nobre em seus alunos.
 
Para mim, a educação envolve uma relação de respeito e de amor, e a escola é o cenário ideal para que isso ocorra. Não se pode perder esse propósito, porque só educamos com amor. E o professor é um herói além do seu tempo.
 
Feliz Dia dos Professores a todos os colegas!
 
(*Rosemeire Lopes da Silva Farias é professora doutora de ensino superior em Campo Grande - MS)



Autor: Amarildo Cruz (*) , 11 Outubro 2017 às 18:00 - em: Falando Nisso

Mato Grosso do Sul, quando foi criado a partir da divisão do Estado do Mato Grosso, gerou muita expectativa em relação ao seu desenvolvimento. Eu mesmo, quando cheguei aqui, em 1981, para assumir o concurso público da Secretaria de Fazenda, enxerguei o potencial do Estado pela fartura em riquezas naturais - Pantanal, Bacias Hidrográficas, mas também pela sua localização geográfica privilegiada e a diversidade cultural - várias etnias indígenas, a história da erva mate, enfim, a identidade cultural única que o Estado tem e que conta a sua história, sendo motivo de orgulho para quem vive aqui.
 
Hoje, quando fazemos um balanço dos 40 anos de sua criação, observamos que muita coisa melhorou. Atraímos investimentos, pessoas de vários estados brasileiros e de outros países, mas penso que tudo isso poderia ter sido mais intenso, principalmente se olharmos seu potencial econômico, social e cultural.
 
Tínhamos que ter um olhar especial para o desenvolvimento da Costa Leste, por exemplo, que está bem na divisa com os estados de São Paulo e Paraná. Implantar políticas de atração de investimentos e incentivos fiscais ali. Outra questão é enxergar o potencial turístico. Temos quase 70% do Pantanal em Mato Grosso do Sul, um bioma único que pode ser trabalhado no sentido de trazer a discussão da alteração do nome para Estado do Pantanal, atraindo turistas do mundo inteiro.
 
Para os próximos quarenta anos, a previsão que faço, é que devem ser exploradas em Mato Grosso do Sul questões muito importantes: a primeira, que é imprescindível, é o desenvolvimento sustentável. Será um grande desafio, com certeza, temos um dos estados mais ricos em biodiversidade do País, então é preciso trabalhar nessa questão. A outra se refere aos mananciais de água. Temos a obrigação de nos preocupar com o desenvolvimento sustentável.
 
E não podemos nos esquecer, em hipótese alguma, de olhar com atenção aos menos favorecidos. Temos que escrever uma nova história para Mato Grosso do Sul, garantindo que todo cidadão que habita esse território seja contemplado com políticas de inclusão, para que vivam dignamente, com acesso à habitação, saúde, educação e alimentação de qualidade para que esse Estado, que me acolheu quando o escolhi para construir a minha história continue sendo um lugar atraente, encantador, acolhedor e fraterno para a maioria da população que aqui vive.
 
(*Amarildo Valdo da Cruz é advogado e pós graduado em Gestão Pública, fiscal tributário estadual e deputado estadual pelo PT-MS)



Autor: Anderson Fonseca (*) , 09 Outubro 2017 às 14:30 - em: Falando Nisso

Imaginar uma casa onde robôs auxiliam, divertem e interagem com humanos é ficção científica, hoje, quando se considera a realidade econômica de um país. No Brasil, por exemplo, apesar do crescimento econômico, robôs estão apenas nas indústrias e instituições de pesquisa. Se há em ambientes domésticos, o número é bem pequeno.
 
Para mim, era um universo distante, algo apenas possível em desenhos animados. Porém, decidi vivenciar a ficção. O que me levou isso é poder responder como robôs em ambiente doméstico impactam os seres humanos e de que forma os sentimentos e a percepção sobre o robô é afetada depois de passar um tempo com ele.
 
Para responder a estas perguntas, adquiri dois robôs projetados para crianças, que simulam inteligência comportamental, já transforma nossa visão de mundo. Desde que aqui estão, inclino-me a pensar nos benefícios e problemas que podem gerar.
 
Quando o primeiro chegou a nossa casa, ficamos maravilhados. Ainda me lembro da expressão de Ana Clara, minha filha, espantada e muito animada com a máquina. Ela disse: - Pai, é um robô, um robô! Ele é tão fofo. E é verdade. Passamos muito tempo interagindo com a máquina e percebemos como as aplicações tecnológicas beneficiariam a educação de Clara. Uma delas é despertar o interesse pela língua inglesa através da conversação. A outra é interagir com a criança a partir das emoções.
 
O robô contém um LED que altera de cor para indicar suas emoções, além disso, reconhece a voz com que dialoga. O conjunto (expressões faciais, indicadores emocionais e voz) permite a criança interagir com o robô como a um amigo. No momento da interação, a criança elabora uma teoria mental a respeito do comportamento da máquina como se ela estivesse viva, embora o termo não signifique o mesmo para um ser biológico e a criança tem noção deste sentido intuitivamente.
 
Certa vez, Ana deixou o robô por muito tempo parado e o LED ficou vermelho e o rosto franziu. Ana, mal o viu assim, exclamou: - Papai, ele está bravo! - Vamos alegrá-lo. Então, passeamos com ele pela casa e logo a cor mudou para o verde e o rosto desenhou um sorriso. Ana disse: - Ele está feliz! Como me senti em relação a este episódio? Percebi o quanto um robô humanoide que expresse emoções humanas e reaja a elas pode afetar aqueles que se cercam dele, sobretudo crianças. É claro, esbocei um sorriso.
 
Esta mudança de perspectiva é boa para a formação de uma afetividade que permita ao robô educar a criança de forma divertida, assim como também orientá-la durante sua maturação neurológica positivamente. Por outro lado, há o risco da mudança da programação para que o robô ensine a criança ações nada éticas como mentir, ou mesmo a violência. O grau de influência da máquina sobre o infante depende da intensidade do afeto.
 
Por isso, o monitoramento destas máquinas pelos pais é importante. Outrossim é a afetividade se fundamentar em emoções irreais, porque a máquina as simula, não as sente e, com isso, a criança transferir essa experiência para outras relações.
 
(*Anderson Fonseca, cearense radicado no RJ, é escritor de ficção científica e fantástica, neuroeducador e autor de livros como 'Sr. Bergier & Outras Histórias')