Garimpando História






Juscelino dormindo em avião da velha Varig e em saudação no desembarque

Reza a lenda, confirmada em várias versões de historiadores, que Juscelino Kubitschek adorava viajar nas alturas, fosse de teco-teco, jato, helicóptero ou qualquer outra geringonça que saísse do chão. Dizem que foi voando que olhou o Planalto Central e afirmou que alí construiria Brasilia. A capital federal, inclusive, tem formato de avião. O Plano Piloto, projeto de Lúcio Costa, está desenhado em forma de pássaro no chão do cerrado. Uma história contada hoje pelo site jurídico Migalhas ilustra a fama do "presidente voador". 

 
Leia...
 
Pode descer
 
Juscelino Kubitschek era um personagem de romance. Suas histórias aéreas matavam de medo os companheiros da campanha e, depois, do governo. Para ele, avião é para voar e acabou-se. Uma noite, na campanha, ia descer no interior do RS. As luzes da cidade apagaram-se, o campo não tinha pista iluminada, o piloto quis voltar para Porto Alegre. Juscelino ordenou:
 
– Pode descer. Deus é juscelinista.
 
Desceram. Era. Outra vez, voavam sobre a Amazônia. Pegaram uma tempestade terrível. Raios, trovões. O avião pinoteando no ar, como pipa, os líderes do PSD e PTB apavorados, de olhos fechados, duros, rezavam, suavam. Juscelino sorriu :
 
– Vou dormir um pouco.
 
Ninguém acreditou. Um mais incrédulo levantou-se, foi lá atrás, puxou a cortina da pequena cabine presidencial privativa. Juscelino dormia e roncava. Outra tarde, voltava de Salvador, anoiteceu em Caravelas, mas precisava voltar ao Rio. O piloto avisou :
 
– Governador, o combustível está acabando. Pode ser que não dê para chegar ao Rio.
 
Vieira de Melo, Getúlio Moura, José Maria Alkmin, João Goulart, apavorados, queriam descer em Caravelas. JK insistiu :
 
– Vamos. Lá a gente vê se deu.
 
Deu.




Coronel Adib vereador e com seus homens [à direita] na época de delegado

Essa quem conta é o colega Maranhão Viegas, que foi repórter da TV Morena (afiliada Globo) e assessor de imprensa da Prefeitura de Campo Grande na gestão do falecido Lúdio Coelho. Há alguns anos morando em Brasília, o jornalista escreveu em 2010 o texto intitulado "Memórias da profissão - votos fugidios" que você lê abaixo...

 
Havia um coronel da Polícia Militar muito famoso, em Mato Grosso do Sul, Adib Massad (foto). Para ele, não tinha bandido bom. Era muito duro no combate aos criminosos, o que ajudou a construir a sua fama. Casos complicados? Chamem o Adib, ele resolve tudo. Às vezes, diziam, utilizando-se de métodos nada convencionais. Mas resolvia.
 
Enquanto esteve no comando do temido GOF – Grupo de Operações de Fronteira, reinava a segurança para uns e o temor para outros. E ele ficou lá por um longo período, ao mesmo tempo, fazendo baixar os índices de roubo, contrabando e tráfico de drogas e, com toda certeza, reduzindo o número de bandidos também. Por muitos anos, naquela faixa de Fronteira entre o Brasil e o Paraguai, o coronel foi a lei.
 
Convivi bem perto dele durante uma semana. Coronel Adib foi escalado para resolver um seqüestro que comoveu a população. Um menino de quatro ou cinco anos, Paulinho, filho de um médico muito querido, que depois viria a ser eleito prefeito da cidade de Cassilândia, passou quase sete dias nas mãos de um grupo de seqüestradores. 
 
Eu era repórter da TV Morena, afiliada da Rede Globo, e fui destacado para cobrir o caso. A comoção pelo seqüestro era tão grande que o governador à época determinou ao secretário de Segurança que transferisse a Secretaria para Cassilândia enquanto as investigações durassem. Sete dias depois de iniciada a caça aos seqüestradores, Paulinho foi solto, são e salvo e os bandidos presos. Nós, jornalistas, conhecemos melhor o coronel Adib sua fama e seus métodos.
 
Tempos mais tarde, de tão famoso na região, o coronel resolveu disputar o cargo de vereador, em Dourados. Foi uma missão difícil. Certa vez, depois de passar o dia em campanha, o coronel resolveu fechar os trabalhos fazendo uma última parada num boteco de beira de estrada, onde um grupo de homens bebia e jogava bilhar. 
 
A imagem do coronel assustava qualquer que fosse a circunstância. Tinha um olho vazado, conseqüência de um tiroteio em que só ele sobrou pra contar a história. O coronel desceu do carro e parou na porta do bar. Um frio subiu a espinha dos que estavam presente. Ele não disse nada e começou a apontar com o dedo, contando em voz alta como quem confirmasse o número de pessoas ali. Havia sete homens, contando o dono do bar. 
 
Adib deu meia volta e foi correndo em direção ao carro. Retornou com sete bonés e sete camisetas nos braços. Mas não encontrou viva alma no boteco. Não houve sequer um corajoso para esperar pela volta do coronel para descobrir o que ele queria. Vai que não fosse para distribuir brindes de campanha? 
 
Mesmo enfrentando esse tipo de dificuldade, naquele ano, o coronel Adib venceu a eleição como o vereador mais votado de Dourados.







Sérgio Cruz, deputado e radialista na primeira metade dos anos 80

Essa quem conta é o próprio personagem, o radialista e ex-deputado Sérgio Cruz. Também conhecido como "Pau na Mula" nas décadas de 70 e 80, tempo da foto acima, quando era deputado federal no período que antecedia as primeira eleições direta pós ditadura militar para prefeitos de capitais no Brasil, ocorridas em 1985.

Sérgio lembra...

– "Na fase de pré-campanha, eu liderava todas as pesquisas".

Tudo, graças às ondas do rádio.

Empolgado, esbanjando confiança, pensou que não tinha pra ninguém e resolveu disputar a cadeira de prefeito, na época ocupada pelo então "biônico" Lúdio Coelho. A performance do "Pau na Mula" nas pesquisas fazia inveja, embora ele estivesse afastado dos programas desde que havia sido eleito deputado ainda sintonizava o efeito das "ondas do rádio" na popularidade. Além do mais, era bom de discurso. E preocupava a concorrência.

– “Todo mundo tentou fazer acordo comigo" , recorda o personagem.

Diante de tanto favoritismo que lhe asseguravam os ouvintes, desligou os ouvidos para o assédio dos demais políticos.

– "Eu não quis saber dessa história de acordo”, confessa Sérgio.  

Na prática, entretanto, a coisa foi bem diferente. A eleição terminou com  Juvêncio César da Fonseca (PMDB) eleito prefeito com 63.565 votos. Em segundo ficou  Levy Dias (PFL) com 38.136. E o Sérgio Cruz, então filiado ao PDT, ficou em terceiro lugar.

– “Foi uma votação tão ridícula, que nem lembro mais”, diz.

Os registros da Justiça Eleitoral lembram. Sérgio Manoel da Cruz obteve 12.474 votos.

Foi bem melhor do que Euclides de Oliveira (PCB) que terminou com 3.248 votos, Jandir de Oliveira (PT) com 1.067 e Wilson Hokama (PTB) com 637. Mas muito fora de sintonia do que os ouvintes diziam aos pesquisadores antes de a campanha começar, conforme me narrou agora, mais de um quarto de século depois, já conformado e até fazendo graça ao lembrar do episódio, o atual comentarista político do programa Tribuna Livre da FM Capital.





Dentre os governadores de MS, só Harry não experimentou o café de Marinho



Mestre Cartola e o engenheiro Celso Higa, historiador de Campo Grande

Depois de sete anos pesquisando a história do samba "Cidade Morena", feito pelo compositor Cartola em parceria com Nuno Veloso em homenagem a Campo Grande, o engenheiro Celso Higa, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, fez uma gravação artesanal da música que você pode ouvir aqui na seção GARIMPANDO HISTÓRIA do Blog que divulga em primeira-mão a composição inédita, com colaboração do jornalista Ítalo Milhomem, amigo de Higa. 

"Cartola chegou em 1962 para participar das festivadades do aniversario da cidade, veio para inaugurar a Praça do Rádio (Praça da República). Demorei sete anos garimpando essa curiosidade musical, até ouvir o parceiro do Cartola (Nuno Veloso) cantarolar por telefone, após nove interurbanos dominicais ao bairro de  Ipanema, no Rio de Janeiro, onde ele mora", conta Celso Higa, que também conversou com Dona Zica, viúva de Cartola, enquanto ela era viva. Higa lembra que "Campo Grande tem o apelido de Cidade Morena porque no início do século 20, quando ainda não tinha asfalto nem paralelepípedo, a poeira da terra vermelha da região alterava a tez das pessoas, deixando-as mais morenas".

"A música só não foi pra frente porque o Jânio Quadros (nascido em Miranda, mas registrado em Campo Grande) renunciou à Presidência do Brasil e essa homenagem musical (que tem uma alusão a ele) foi levada ao ostracismo".  Clicando no ícone abaixo, você ouve a gravação feita por Celso Higa "só para registro e guardar no meu arquivo pessoal", explica. O violão solo, com os fraseados, é do José Boaventura Sá Rosa "meu finado amigo  e uma referência cultural no MS, que era engenheiro eletricista como eu". "Os sons do surdo e tamborim foram sampleados em estúdio", explica Higa.

Veja a letra e ouça o samba inédito de Cartola...
 
CIDADE MORENA
(Nuno Veloso e Cartola)
 
És Cidade Morena,
muito embora pequena,
de valor tradicional.
Do Oeste és a fronteira,
modesta e bem brasileira,
graciosa e sem rival.
Berço nobre de um presidente,
a quem felizmente,
dá-se o seu valor.
Campo Grande, és o progresso,
prá quem de coração peço
um futuro promissor.