José Valdetário Benevides, o assaltante Valdetário Carneiro temido no Nordeste que foi tema de trabalhos acadêmicos, documentários, do programa "Linha Direta" da Globo e inspirou o livro "Valdetário Carneiro, a Essência da Bala", escrito pelos jornalistas Rafael Barbosa, Themis Lima e Paulo Nascimento, é o protagonista do seguinte "causo" contado por Gaudêncio Torquato em suas Porandubas Políticas:
"O lendário Valdetário Carneiro contribuiu para os causos de Caraúbas/RN.
Ia ele em sua pick up na zona rural de Apodi. Próximo à cidade, um senhor meio alquebrado pelos anos acenou pedindo carona. Valdetário prontamente o atendeu, abrindo a porta. Já aboletado e no conforto do ar condicionado, começou a puxar conversa:
– O senhor vai pro Apodí ?
– Vou sim -, respondeu Valdetário, vou tratar de negócios no banco.
O carona resolveu dar uma de conselheiro:
– O senhor tenha cuidado. Se vai tirar dinheiro no banco e andando nesse carrão, aqui por essas bandas, tenha cuidado pois há gente perigosa por aí. Tem um tal de Valdetário Carneiro, homem de muita fama que pode ser um grande risco, principalmente pra quem é de fora.
Valdetário riu da situação e até agradeceu:
– Obrigado, eu vou ficar atento.
Em seguida devolveu a pergunta:
– E o senhor não tem medo de estar sozinho nessa beira de estrada? E se de repente lhe aparece o tal do Valdetário Carneiro?
– Ele que venha - completou o carona com valentia de quem se sente em confortável distância do perigo. E acrescentou: '– Um homem nasceu pro outro.'
Chegados ao destino, o carona já ia descendo quando resolveu fazer mais uma pergunta.
– Obrigado por tudo, senhor. Vá com Deus. Mas como é mesmo o seu nome?
Com toda naturalidade Valdetário respondeu:
– Eu sou Valdetário Carneiro. E o senhor como se chama ?
Branco como algodão, suando pelos poros, com as pernas trêmulas e a voz embargada, o carona mal conseguiu balbuciar:
– Eu sou o finado Manoel."
Do Gaudêncio Torquato em suas Porandubas Políticas:
"Dinarte Mariz (UDN) era governador do Rio Grande do Norte. Em uma de suas costumeiras visitas à Caicó, visitou a feira da cidade, acompanhado da sempre presente Dona Nani, secretária de absoluta confiança. Dá de cara com um amigo de infância e logo pergunta :
– 'Como vai, Zé Pequeno?'
O amigo, meio tristonho e cerimonioso, responde:
– 'Governador, o negócio não tá fácil; são oito filhos mais a mulher... tá difícil alimentar essa tropa vivendo de biscate. Mas vou levando até Deus permitir.'
O velho Dinarte o interrompe de pronto :
– 'Zé, que é isso, homem, deixe essa história de governador de lado. Sou seu amigo de infância, sou o Didi!'
Vira-se para Dona Nani e ordena:
– 'Anote o nome do Zé Pequeno e o nomeie para o cargo de professor do Estado.'
Na segunda-feira, logo no início do expediente, Dona Nani entra na sala de Dinarte e vai logo informando:
– 'Governador, temos um problema, o Zé Pequeno, seu amigo, é analfabeto; como podemos nomear...'
Antes que concluísse a fala, o governador atalha:
– 'Virge Maria, Dona Nani! O Rio Grande do Norte não pode ter um professor analfabeto. Aposente o homem imediatamente.'
E assim foi feito!"
As imagens acima retratam Campo Grande no início da década de 1950 e fazem parte de uma coleção de postais leiloada no ano passado em São Paulo, enviadas pelo professor Hugo Segawa, da USP, ao arquiteto e professor da UFMS, Ângelo Arruda. À esquerda, a igreja de Santo Antônio em frente à Rua 26 de Agosto (a primeira rua da cidade) e à direita um "busão" da época passando em frente ao antigo Hotel Americano, na esquina das ruas 14 de Julho e Marachel Rondon (antiga I-juca Pirama). Veja mais aqui no perfil do Ângelo no Facebook.
História dos tempos em que havia grandes tribunos políticos, contada pelo Gaudêncio Torquato em suas Porandubas Políticas:
"Tancredo Neves era promotor em São João Del Rey, em Minas.
Um homem chamado Jesus matou uma mulher chamada Madalena. Tancredo pediu 22 anos de cadeia para Jesus, o júri deu 18, Jesus foi para a cadeia, Tancredo esqueceu.
O tempo passou. Nove anos depois, Tancredo advogado, vai a Andrelândia, pequena cidade próxima a São João Del Rey. De barba por fazer, entra em modesta barbearia de canto de rua, senta-se, está cansado, fecha os olhos, o barbeiro pega a navalha, afia, começa a tirar-lhe a barba, puxa conversa :
— O senhor é o Dr. Tancredo Neves, né ?
Tancredo abre os olhos, reconhece Jesus, o assassino de São João Del Rey. Espia pelo canto do olho, a barbearia vazia, a rua vazia, não chegava ninguém, não passava ninguém, o suor minava aflito na testa molhada e Jesus com a navalha enorme na mão pesada correndo garganta abaixo, sobe-desce, sobe-desce, abrindo caminhos na espuma.
Jesus ficou só espiando. Tancredo só teve voz para dizer:
— Sou, sim.
— Pois é, Dr. Tancredo, a vida.
— Pois é, Jesus, a vida.
— Cumpri nove anos dos 18, estou aqui, o senhor aí, o senhor com sua barba, eu com minha navalha. Só queria lhe dizer uma coisa, Dr. Tancredo.
Tancredo suava, Jesus corria a navalha pelo pescoço :
— Que coisa bonita é um júri, hein, Dr. Tancredo? Que coisa mais bonita, que discursos bonitos que o senhor e o outro doutor fizeram!"