Remar, remar, remar... Heitor Freire (*)

Remar, remar, remar...

A vida pode ser mesmo surpreendente. A cada momento surgem situações que nos obrigam a um exercício de superação para fazer face às demandas que se apresentam.
 
Ao longo dos meus 86 anos, várias foram as circunstâncias que me obrigaram a encará-las, tendo sempre um norte: não fugir às minhas responsabilidades. Minha única decisão, sempre, foi continuar, e nunca recuar.
 
Esse aprendizado foi confirmando essa premissa. Tenho o couro curtido, tantas foram as dificuldades que enfrentei, o que acabou me fortalecendo, física, mental e espiritualmente.
 
Aprendi que sou o único responsável pelo que me acontece. Assim, procuro aprender com cada situação.
 
Atualmente, como membro do conselho de administração da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, do qual participo há 13 anos, desde 2013, me vejo, juntamente com os demais conselheiros, ante uma situação bastante inusitada. 
 
O juiz titular da 2ª vara de direitos difusos, atendendo a um pedido do Ministério Público Estadual, interviu na Santa Casa, nomeando um superintendente judicial, e pasmem, afastando os membros do conselho que foram impedidos de circular pelo hospital da Santa Casa. E, como se sabe, decisão judicial se cumpre. Mas também se contesta, o que estamos fazendo. E assim estamos vivendo, mais uma vez, o fantasma da intervenção.
 
Nós continuaremos lutando, em todas as instâncias, como já fizemos anteriormente pela nossa volta à Santa Casa, que é uma instituição de direito privado, não cabendo, portanto, essa intervenção. 
 
Continuaremos lutando. O meu mandato atual vai até o fim de 2031.
 
A propósito, me vem à lembrança uma situação registrada na história, vivida por Cristóvão Colombo. Conta-se que Colombo, após peregrinar por diversos reinos apresentando seu projeto de encontrar novos territórios, acabou conseguindo apoio de Isabel de Aragão, a rainha da Espanha.
 
Uma vez assegurados os recursos financeiros, além das três caravelas Niña, Pinta e Santa Maria, Colombo precisava contratar a tripulação para a empreitada. Depois de obter apoio dos armadores Martin Alonzo Pinzón e seu irmão Vicente Yanez Pinzón, profissionais qualificados para uma grande expedição, Colombo precisava de remadores.
 
As caravelas, com suas imensas velas, eram impulsionadas pelo vento. Mas quando havia uma calmaria só a força dos remadores poderia impulsioná-las. Colombo tentou por diversos meios contratar remadores, mas não conseguia ninguém disposto a uma aventura tão trabalhosa e desafiadora. 
 
Então, na véspera da data de largada de suas embarcações rumo ao desconhecido, Colombo perambulou por todos os bares nas redondezas da zona portuária de Palos de la Frontera, onde pagou rodadas de bebidas para os marinheiros que encontrava, e que acabaram se embebedando, a ponto de desmaiar. Uma vez desmaiados, eram transportados para as caravelas.
 
Após a cerimônia solene da largada, Colombo lançou-se mar adentro. Por volta do meio-dia, os marinheiros começavam a acordar, e vendo que estavam em alto mar, se revoltaram e ameaçaram matar Colombo. Este disse a eles: “Vocês podem me matar, mas só eu sei onde estamos e para onde vamos. Assim, é melhor que se acalmem e continuemos.” “E o que faremos?”, perguntaram. Colombo respondeu: “Remar, remar, remar. E amanhã?: remar, remar, remar. E depois de amanhã?: remar, remar, remar, até chegar à terra firme.”
 
Há uma analogia dessa passagem de Colombo com a situação atual dos conselheiros da Santa Casa, pois nós só temos uma alternativa: remar, remar, remar, até obter a decisão judicial que devolva o que pertence à sua legítima proprietária, a Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande, assim como aconteceu em 2013.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – decano do conselho de administração da ABCG Santa Casa)


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Postado por: Heitor Freire (*), 27 Outubro 2026 às 11:40 - em: Falando Nisso


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