Heitor Freire (*)
O que é um dia útil?
Está tramitando no Congresso Nacional um projeto de lei que muda a jornada de trabalho de 6x1 para 5x2 dias semanais, o que está gerando uma série de discussões em toda a sociedade. Será que é bom ou não?
Pois bem, pesquisando sobre o assunto descobri que Henry Ford já tinha instituído em suas fábricas a jornada de 5x2 há exatamente 100 anos!
Isso ajudou a transformar o mundo do trabalho. A inovação na indústria automotiva e na organização do trabalho trouxe marcos bem específicos: mudança de jornada, a semana de trabalho foi reduzida de 6 dias (48 horas) para 5 dias (40 horas), sem corte salarial porque Ford percebeu que trabalhadores exaustos cometiam mais erros e eram menos produtivos. Com isso, ganhou o respeito de seus funcionários e aumentou o lucro da empresa porque a produtividade teve um aumento significativo.
Examinando o tema sob uma perspectiva mais ampla, podemos observar:
O que é um dia útil? Dia útil é qualquer dia da semana em que há expediente normal em empresas, bancos e órgãos públicos, excluindo domingos e feriados.
No meu entendimento, esse conceito está equivocado, pois todos os dias são úteis. Temos os dias laborais, os de folga, de descanso, de férias, etc. mas todos os dias são úteis porque são oportunidades para o nosso aprimoramento espiritual, o que, em última ou primeira instância, é a nossa finalidade na encarnação.
Do ponto de vista filosófico, um dia útil não é apenas uma convenção administrativa de 24 horas. Ele representa a mercantilização do tempo, onde o devir natural é fatiado em unidades de produção. E reflete a tensão entre o tempo quantitativo (para o mercado) e o tempo qualitativo (para a existência humana).
Filosoficamente temos alguns conceitos que elenco a seguir:
1. O tempo submetido à utilidade
A própria expressão "dia útil" deriva do utilitarismo, uma corrente ética que mede o valor das ações pelos resultados e benefícios práticos. Neste contexto, o tempo perde seu valor intrínseco (a simples dádiva da existência) e ganha um valor extrínseco: ele só é "útil" se for produtivo, se gerar lucro, circulação de mercadorias ou prestação de serviços. O dia se torna um meio para um fim, e não um fim em si mesmo.
2. A ilusão da produtividade contínua
Para a sociedade contemporânea, o dia útil é a base do contrato social, como lembra a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) no Brasil, que organiza os ciclos de labor e a garantia de direitos como o pagamento de salário até o quinto dia útil. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em sua obra A sociedade do cansaço, critica essa hiperatividade. A exigência de que o ser humano seja constantemente "útil" o transforma, ao mesmo tempo, em carrasco e vítima de si mesmo, levando à exaustão.
3. A dialética do trabalho e do descanso
Desde a Antiguidade, a filosofia investiga o ritmo da vida. Pensadores como Aristóteles argumentavam que o objetivo final do trabalho é o ócio (entendido não como ficar à toa, mas como o tempo dedicado ao cultivo do espírito, da arte e da contemplação). O final de semana ou feriado, por oposição ao dito dia útil, é o momento de suspensão da utilidade econômica, onde o indivíduo pode contemplar a sua humanidade para além da sua função de produtor ou consumidor.
Em síntese, filosoficamente, o "dia útil" é o triunfo do tempo cronológico e instrumental sobre o tempo biológico e reflexivo, demarcando o período em que a existência humana é absorvida pela máquina social.
Já o estoicismo aborda o dia útil com um conceito próprio, como vemos a seguir:
Para o estoicismo, o "dia útil" transcende o conceito corporativo moderno. Não se mede pelo expediente de trabalho, mas pelo exercício da virtude (sabedoria, coragem, justiça e temperança) e por agir de acordo com a razão. Um dia útil é aquele em que você faz escolhas conscientes e vive com propósito.
Os pilares para tornar o seu dia "útil" nesta filosofia incluem:
Foco no que você controla: Aceitar que eventos externos e o comportamento dos outros não dependem de você. Sua única utilidade está em como você julga essas situações e reage a elas.
A rotina matinal e o planejamento: Filósofos como Marco Aurélio viam o amanhecer como o momento ideal para preparar a mente para os desafios. A reflexão matinal define a direção das suas ações para o dia.
Amor Fati: Amar o seu destino. Enxergar qualquer obstáculo, por pior que pareça, como matéria-prima para a virtude e o crescimento pessoal.
A preparação para as adversidades (Premeditatio Malorum): Reservar um momento do dia para antecipar mentalmente possíveis dificuldades ou perdas, para que, ao encontrá-las na prática, você não seja pego de surpresa e aja com serenidade.
Para os estoicos, um dia inútil é aquele desperdiçado na ansiedade sobre o futuro ou em lamentações sobre o passado, visto que o tempo presente é o único recurso sobre o qual temos poder de ação.
Enfim, a mesa está posta. Sirvam-se à vontade.
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)
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Postado por: Heitor Freire (*), 16 Junho 2026 às 11:45 - em: Falando Nisso