Heitor Freire (*)
Ditados populares
Ando encantado com a sabedoria popular, traduzida por ditados que ultrapassam os tempos e que em geral não precisam de explicação.
Provérbios e ditados são frases curtas que têm a função de aconselhar e advertir, ao mesmo tempo que transmitem algum ensinamento, frequentemente de uma forma bem-humorada. Às vezes possuem rimas, um recurso que ajuda bastante na memorização. Daí a se tornarem tão populares.
De tradição oral e presente no nosso dia a dia, os ditados fazem parte da nossa cultura e do nosso folclore. Eles surgem das interações cotidianas e são transmitidos por gerações. Por isso, os autores dessas expressões são anônimos. Como se diz, num dos ditados, a voz do povo é a voz de Deus.
A professora de língua portuguesa e literatura Márcia Fernandes elencou uma bela coleção de ditos populares, da qual extraio os mais eloquentes. São tantos que vou editar por etapas*.
A César o que é de César, a Deus o que é de Deus.
Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.
A pressa é a inimiga da perfeição.
O apressado come cru e quente.
À noite todos os gatos são pardos.
Antes só do que mal acompanhado.
As aparências enganam.
Quem vê cara não vê coração.
O hábito não faz o monge.
Cada macaco no seu galho.
Cada um no seu quadrado.
Quem sai aos seus não degenera.
Nem tudo que reluz é ouro.
Papagaio que acompanha joão-de-barro vira ajudante de pedreiro.
Cada um sabe onde o sapato aperta.
Quem é vivo sempre aparece.
Quem espera sempre alcança.
Caiu na rede, é peixe.
Em casa de ferreiro, o espeto é de pau.
Cachorro que ladra não morde.
De grão em grão, a galinha enche o papo.
Devagar se vai ao longe.
De médico e de louco todo mundo tem um pouco.
Deus ajuda a quem cedo madruga.
Deus escreve certo por linhas tortas.
Diz-me com quem andas e te direi quem és.
É dando que se recebe.
Em terra de cego quem tem um olho é rei.
Escreveu, não leu, o pau comeu.
Filho de peixe, peixinho é.
Gato escaldado tem medo de água fria.
Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão.
Mais vale um pássaro na mão do que dois voando.
Mentira tem perna curta.
O barato sai caro.
Onde há fumaça há fogo.
O seguro morreu de velho.
Para bom entendedor, meia palavra basta.
Certos ditados são, na verdade, versões alternativas de frases conhecidas, que acabaram se popularizando de forma equivocada no país — algo que talvez confunda até o professor de português mais “craque” no assunto.
Estes são os ditados que os brasileiros mais falam errado:
Quem não tem cão caça com gato (Quem não tem cão, caça como gato).
Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão (Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão).
Enfiou o pé na jaca (enfiou o pé no jacá).
Hoje é domingo, pé de cachimbo (hoje é domingo, pede cachimbo).
Cor de burro quando foge (corro de burro quando foge).
Fulano é cuspido e escarrado (Fulano é esculpido e encarnado).
Outro ponto interessante é a origem da expressão pé-de-moleque. Em Minas Gerais, quando as crianças chegavam perto das panelas, as cozinheiras que faziam doce diziam: “pede moleque, pede”. Daí virou pé-de-moleque, dando nome a um dos mais famosos doces mineiros.
(*Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado)
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Postado por: Heitor Freire (*), 26 Maio 2026 às 11:45 - em: Falando Nisso