Da simplicidade Heitor Freire (*)

Da simplicidade

Nestes tempos de busca pelo exibicionismo a qualquer custo, em que a vaidade prevalece e o prestígio social define as pessoas, a simplicidade desaparece em detrimento de uma reputação construída artificialmente.
 
Ser é uma coisa, mas parecer é outra bem diferente. Ser decorre da autenticidade. Quem é não precisa da validação dos outros.  A pessoa apenas é, e sabe disso.
 
Há um fato histórico na Roma antiga, em que Pompéia, mulher de César, realizou em sua casa uma festa em homenagem a Bona Dea ("boa deusa"), na qual homem nenhum poderia participar. Porém, um jovem patrício, Públio Clódio Pulcro, conseguiu entrar disfarçado de mulher, com a intenção de seduzir Pompéia. Ele foi pego e processado por sacrilégio, mas César não apresentou nenhuma evidência contra Clódio no julgamento, e ele acabou inocentado. Diante dos rumores sobre a inocência de Pompéia nesse episódio, César se divorciou da esposa, afirmando: “À mulher de César, não basta ser honesta, ela precisa parecer honesta”. Assim, ele criou um critério discutível, que demonstra a importância da responsabilidade de uma figura pública, que precisa ostentar não só provas, mas aparência de retidão.
 
Por outro lado, um comportamento se impõe, por sua natureza: a simplicidade. A simplicidade vem da autenticidade que não precisa se provar. Também pode representar a qualidade de quem é franco, sincero, puro ou inocente. Quando se diz que algo é dotado de simplicidade significa que é de fácil compreensão, composto por pouca ou nenhuma complexidade.
 
A simplicidade indica ausência de dificuldade, clareza no entendimento e um modo de vida ou comportamento espontâneo, humilde e livre de afetação, vaidade ou orgulho, revelando alguém que não precisa criar personagens, ostentar status ou fingir ser quem não é para se sentir importante ou aceito pelos outros. 
 
Ela é a virtude de tirar o excesso para encontrar a essência das coisas. A filosofia divide esse conceito em duas grandes áreas: o modo de levar a vida e a forma de se avaliar teorias e a ciência.
 
O que significa ser simples: apresentar ausência de complexidade, algo fácil de entender, sem regras difíceis ou enfeites desnecessários, um modo de agir sincero, franco, sem falsa pose ou arrogância, com um estilo de vida com menos excessos, valorizando o que é essencial.
 
Vários pensadores antigos e modernos exaltam a simplicidade como modo de viver, afirmando que a felicidade está em viver com menos, menos é mais.
Epicuro ensinava que a alegria vem de desejos fáceis de se conseguir, como boa comida e amigos leais.
 
O estoicismo pede foco apenas no que se pode controlar, sem gastar tempo com luxo ou vaidade.
 
Diógenes vivia quase sem nada para provar que não precisava de bens materiais para ser livre.
 
Henry David Thoreau defendeu que a alma humana se afoga quando gasta a vida acumulando coisas desnecessárias. 
 
Tanto na lógica como na ciência a simplicidade é um guia para se encontrar a verdade.
 
O frade franciscano Guilherme de Ockham (1287-1347), criou uma regra que ficou conhecida como a Navalha de Ockham: ela diz que se há duas explicações para o mesmo fato, a mais curta e direta costuma ser a correta,  e  defende a intuição como ponto de partida para o conhecimento do universo, e pregava que  "as entidades não devem ser multiplicadas além do necessário, pois a natureza é por si econômica e não se multiplica em vão", um princípio da economia conhecido como “Duns Scotus”.
 
Segundo o critério da verdade na filosofia, muitos pensadores usam a simplicidade para escolher teorias melhores. Ideias cheias de voltas e regras escondidas perdem seu valor diante de explicações mais límpidas. Do ponto de vista filosófico, a simplicidade é uma virtude teórica e prática. Ela define a busca pela essência das coisas sem excessos. Na lógica e na ciência, prefere-se a explicação mais direta. Na ética, ela representa o desapego de ilusões e o foco no que é real para alcançar a paz. 
 
A simplicidade nas atitudes é a prática de conduzir-se de maneira natural, transparente e despretensiosa, eliminando excessos, segundas intenções, vaidades ou complicações desnecessárias. É fazer o que é certo e comunicar-se sem máscaras ou cálculos excessivos sobre a opinião alheia. 
 
Em suma, as características primordiais da simplicidade como forma de agir são:  valorizar o essencial, como um momento de paz, a respiração ou o convívio genuíno, além de ter leveza diante dos próprios erros, como a capacidade de rir de si mesmo, aceitar falhas e não se levar tão a sério.
 
A paz interior, alcançada como manifestação da simplicidade, é uma segurança que vem de dentro, tornando a convivência com os outros mais calma, agradável e sem tensões.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


Deixe seu comentário


Postado por: Heitor Freire (*), 18 Agosto 2026 às 11:45 - em: Falando Nisso


MAIS LIDAS