Cooperar ou combater? Heitor Freire (*)

Cooperar ou combater?

Desde sempre, há um dilema que envolve os seres humanos de forma dramática: combater ou cooperar? Pela observação da história, verificamos que o que prevaleceu sempre foi o combate, a conquista do espaço, o domínio do outro para benefício do vencedor.
 
Mas a mesma história, com base na filosofia, mostra que essa ação – combater, dominar, vencer –, embora momentaneamente prevaleça, a longo prazo não se sustenta porque o domínio acaba quando um outro mais forte se apresenta e passa a dominar. Esse ciclo vem se repetindo ao longo dos tempos, embora a filosofia, desde então, também tenha demonstrado que essa ação se deteriora por si só. 
 
Jesus veio para nos ensinar que o amor é o verdadeiro caminho para a convivência humana, e é a única saída para a evolução espiritual.  
 
A bióloga Lynn Margulis, em publicação no site O Antagonista, levantou essa questão com a frase “A vida não conquistou o planeta pelo combate, mas pela cooperação”, inspirando uma visão da evolução que valoriza a aliança entre os seres vivos. Sem negar a competição, esse enfoque destaca a cooperação como uma força essencial para a sobrevivência e a diversificação da vida. 
 
A ciência vem agora, em socorro da tese cristã, com um enfoque totalmente imparcial, mostrando como a vida se desenvolve em todos os seus aspectos físicos, biológicos e humanos, inspirando uma visão da evolução que valoriza a cooperação. 
 
E o que é a cooperação biológica na natureza? É o conjunto de interações em que os organismos se beneficiam ou convivem de forma integrada, aumentando suas chances de sobrevivência e reprodução. Quando ambos ganham claramente, chamamos de mutualismo; em outros casos, a relação é simbiótica e envolve uma dependência mais profunda.
 
Essas parcerias ocorrem em todos os domínios da vida, de bactérias que formam biofilmes protetores a animais que transportam pólen e sementes. Em ambientes extremos, como as fontes hidrotermais ou nos desertos, a associação entre microrganismos e outros seres ajuda a superar a escassez de nutrientes e condições hostis.
 
E como a cooperação se manifesta em diferentes níveis?
 
A teoria da endossimbiose, defendida por Margulis, propõe que mitocôndrias e cloroplastos surgiram de antigas bactérias que passaram a viver dentro de outras células. Em vez de destruição, houve uma integração funcional, tornando o sistema celular desses organismos ainda mais complexo e eficiente ao longo da evolução.
 
Na prática, a cooperação aparece em vários níveis organizacionais da vida:
 
Fisiologia: dentro do organismo, células especializadas formam tecidos e órgãos que atuam de modo coordenado.
 
Socialidade: entre indivíduos, insetos sociais, bandos e cardumes dividem tarefas de defesa, alimentação e cuidado com os filhotes.
 
Simbiose: entre espécies distintas, como micorrizas entre fungos e plantas, além de bactérias intestinais e seus hospedeiros.
 
Aí então, entra em campo a filosofia, ensinando que cooperar e combater não são excludentes, mas duas forças essenciais da dinâmica humana. A filosofia não busca um "vencedor", mas compreender o papel de ambas: o combate impulsiona a transformação e a sobrevivência, enquanto a cooperação provoca a coesão social, a ética e a manutenção da própria vida.
 
O dilema entre cooperar e combater abrange diferentes pontos de vista:
 
O combate como motor (na perspectiva de Nietzsche e Hobbes): para Thomas Hobbes, o "estado de natureza" é uma guerra de todos contra todos, na qual o combate é a garantia da sobrevivência. Já Friedrich Nietzsche vê o combate — a "vontade de potência" — como a força criativa essencial para superar limites e evoluir. 
 
A cooperação como sobrevivência (na perspectiva de Kropotkin e Maturana): o biólogo e filósofo Humberto Maturana argumenta que a competição é, na verdade, uma negação do outro, e que a evolução humana se fundamenta estruturalmente na cooperação e no afeto. O pensador Piotr Kropotkin defendia que o apoio mútuo é o principal fator da evolução, muito mais do que a luta direta pelo mais forte.
 
A síntese (na perspectiva de Hegel e da dialética): A dialética hegeliana enxerga o progresso como um choque de opostos (tese e antítese) que resulta em uma nova realidade (síntese). O conflito (combate) gera a mudança, mas é resolvido através da integração e do acordo (cooperação).
 
No cotidiano, a filosofia nos ensina que a sabedoria está em dosar essas duas forças: combater o que é injusto, a ignorância e os próprios limites; e cooperar para construir vínculos, desenvolver a empatia e garantir o bem comum.
 
Cooperar não é um favor que fazemos aos outros — é um dever para com a própria natureza. Assim como mãos e pés trabalham juntos sem disputa, também nós fomos feitos para agir em conjunto. Quando nos irritamos, nos isolamos ou rejeitamos o outro, não estamos sendo fortes, mas contrariando aquilo que nos sustenta como humanos.
 
Para o estoicismo, viver bem é viver em harmonia: com a razão, com a natureza e com as pessoas. A verdadeira virtude se revela quando escolhemos contribuir, mesmo diante das diferenças, lembrando que ninguém caminha inteiramente sozinho.
 
Enfim, disso tudo, se sobressai magnificamente a mensagem de Jesus: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo”.
 
E ainda, cabe a cada um de nós a própria escolha.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


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Postado por: Heitor Freire (*), 30 Junho 2026 às 13:00 - em: Falando Nisso


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