A questão da maiêutica Heitor Freire (*)

A questão da maiêutica

Maiêutica. Êta, palavrinha esquisita, não é mesmo?
 
O termo grego maieutike significa "arte de partejar" ou "arte de fazer partos". Na prática, a palavra refere-se a um método filosófico criado por Sócrates. Ele comparava seu estilo de diálogo com a profissão de sua mãe, que era parteira. A lógica funciona assim: como uma parteira ajuda uma mulher a dar à luz um bebê, Sócrates usava perguntas estratégicas para ajudar as pessoas a "darem à luz" (descobrirem) os conhecimentos e verdades que já estavam dentro de si mesmas. E daí partirem para a construção do conhecimento, porque, segundo ele, ninguém ensina nada a ninguém. Em vez de apenas dar respostas prontas, o método consiste em guiar o interlocutor por meio de questionamentos até que ele próprio deduza a resposta correta. Assim, Sócrates apenas estimulava o outro a aprender o que já estava dentro de si mesmo. Ou seja, nós sabemos tudo, mas temos que cavoucar em nosso interior, buscar e encontrar o que já sabemos.
 
Sócrates proclamava o autoconhecimento como a pedra angular de toda evolução, baseado na famosa frase fixada na fachada do Templo de Apolo, na ilha de Delfos: “Nosce Te Ipsum” (Conhece-te a ti mesmo).
 
O aprendizado constante que caracteriza a vida dos seres conscientes se manifesta pela vontade de evoluir. Começa quando entendemos que sem consciência o corpo não existe, porque é a consciência – um atributo do espírito – que produz o entendimento que nos leva a constatar que o universo está em contínua expansão, e que tudo tem uma origem espiritual. Continua quando aprendemos que a morte é a porta para a libertação, significando um grande alívio. Esse aprendizado começa sempre com uma pergunta. Saber perguntar é fundamental, como bem ensinou Sócrates.
 
Eu, como cavaleiro andante – cavaleiro porque assim me nomeou a Ordem do Mérito do estado, e andante porque eu não paro – e curioso, estou sempre pesquisando, estudando, aprendendo.
 
Assim, baseando-me em Sócrates e em meu discernimento, aprendi que o mais importante de tudo é o autoconhecimento, porque de nada valerá ter o conhecimento de todas as ciências se não alcançarmos essa etapa que é fundamental. O autoconhecimento é a maior riqueza que poderemos alcançar porque nos acompanhará pela eternidade, propiciando-nos, sempre, um aprendizado permanente.
 
Para que esse status seja alcançado, é preciso acrescentar a ele um requisito fundamental: a alegria de viver – cujo segredo se alcança ao entender a vida nos termos mais claros e simples, com verdade, sinceridade e fé. E esse status nos ensina que a vida é um dom maravilhoso e é preciso vivê-la em toda a sua plenitude; e, também, que não existe tesouro mais precioso do que a própria vida. E assim, pois, vamos desfrutar dessa oportunidade extraordinária de estarmos vivos.
 
Há uma tendência universal nas pessoas de querer dominar e mandar em tudo, de ser o dono da verdade. Nós somos, constantemente, sujeitos e objetos de algo: de uma religião, de uma filosofia, de um grupo, de uma empresa, de uma associação, etc. E dentro dessas organizações, naturalmente, vamos buscar a ascensão interna para, assim, nos destacarmos assumindo posições de controle para podermos fazer valer nossa opinião. Usamos um termo que bem identifica essa ação: tem que. Tem que ser assim, por isso, por aquilo, porque eu sei, porque eu mando, porque eu conheço etc. Todas as vezes que ouço essa expressão, já fico em guarda. Eu mesmo a utilizei tantas vezes que a identifico a quilômetros de distância.
 
O autoconhecimento nos liberta de tudo isso.  É preciso estar atento para não ir para a outra margem. Da radicalização total para a liberalização geral. O Baghavad Gita nos ensina a seguir o sagrado, abençoado e dourado caminho do meio.
 
E esse caminho não se esgota no tempo. Pelo contrário, é infinito porque quanto mais sabemos, mais nos falta saber. Como o próprio Sócrates afirmou e: “Só sei que nada sei”.
 
Enfim, maieutiquemo-nos.
 
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)


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Postado por: Heitor Freire (*), 02 Junho 2026 às 13:00 - em: Falando Nisso


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