Heitor Freire (*)
A mulher e as religiões
A mulher, desde sempre, foi considerada pelas religiões hierarquicamente abaixo do homem, pois foi atribuída a ela a responsabilidade pela “queda” do homem (na passagem bíblica sobre Adão e Eva, quando ela o induziu a morder a maçã proibida e ambos foram expulsos do paraíso) – o que foi interpretado como um desígnio divino e isso se consolidou ao longo dos tempos. Essa condição está muito clara no catolicismo, no judaísmo e no islamismo, que colocaram sempre a mulher numa posição inferior em relação ao homem.
O cânon 1024 do Código de Direito Canônico, conjunto de leis que regem o funcionamento da Igreja Católica, é claro: “Só um varão batizado pode receber validamente a ordenação sagrada”. São Tomás de Aquino também é enfático na discriminação das mulheres.
Elas eram vistas assim em virtude de suas características biológicas, como a menstruação, a gravidez, a procriação e a amamentação; daí então que o papel da mulher seria exclusivamente a criação dos filhos e os cuidados com o lar; ou seja, dentro de uma abordagem religiosa arcaica o mundo da mulher era circunscrito ao espaço doméstico, enquanto as atividades externas e intelectuais caberiam ao homem, por não estar sujeito àquelas funções biológicas, portanto, apto para as atividades externas ao lar.
A cultura da mulher discriminada e submissa, imposta pelas religiões tradicionais, perdurou por séculos, fazendo com que por um longo período as mulheres perdessem muitas oportunidades na vida.
Desde a Revolução Industrial e a entrada das mulheres no mercado de trabalho, muitas transformações aconteceram não só na maneira pela qual as mulheres passaram a ser vistas pela sociedade, mas sobretudo no modo como elas mesmas passaram a se ver. Hoje todos temos plena consciência do grande prejuízo que as mulheres sofreram historicamente sob o jugo das religiões. Ou seja, todo o atraso na igualdade de direitos entre homens e mulheres se deve em grande parte a princípios religiosos que negaram à mulher a chance de exercer toda a sua capacidade.
Portanto, a conquista da autonomia das mulheres nunca se deu dentro do campo da religião, mas fora do mundo religioso, na sociedade laica, onde elas puderam manifestar seu talento e suas habilidades tanto no mundo profissional, quanto na família, na política, na economia, no ensino, etc.
As religiões perderam essa batalha, porque hoje vemos que o papel das mulheres no mundo moderno é irreversível. Com isso, as religiões deixaram de contar com uma colaboração efetiva das mulheres, que poderiam contribuir com sua intuição e consciência para um aprimoramento adequado de seus postulados.
Já na Doutrina Espírita, que considero a verdadeira interpretação dos ensinamentos de Jesus, há uma papel de destaque da mulher, como no caso de Maria Madalena, primeira testemunha da ressurreição de Cristo.
O espiritismo defende a igualdade fundamental entre homens e mulheres, afirmando que os espíritos não possuem gênero, pois alternam experiências em corpos masculinos e femininos ao longo de múltiplas reencarnações, a fim de alcançarem seu pleno aprendizado. Essa visão é embasada em princípios que promovem a emancipação e o respeito ao papel feminino na sociedade.
Segundo Allan Kardec, o codificador do espiritismo, a igualdade de direitos não é mera concessão, mas uma lei da própria natureza. Conforme esclarecido em O livro dos espíritos, homens e mulheres têm oportunidades iguais para adquirir as experiências necessárias ao seu progresso moral e intelectual. As diferenças de tratamento que ocorreram ao longo da história derivam de imperfeições civilizatórias nos costumes terrenos, e não de desígnios divinos.
Eu, que tenho o privilégio de viver há décadas profundamente imerso no universo feminino, pai que sou de sete filhas, posso testemunhar o quanto elas são capazes e competentes no encaminhamento de todas as situações de que participam, no lar, no trabalho e na sociedade.
(*Heitor Rodrigues Freire – corretor de imóveis e advogado)
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Postado por: Heitor Freire (*), 14 Julho 2026 às 12:45 - em: Falando Nisso