Gaudêncio Torquato (*)
A América Latina partida ao meio
A América Latina transformou-se em um imenso tabuleiro ideológico, no qual as peças se distribuem entre os campos da esquerda e da direita. O centro político, que durante décadas abrigou partidos moderados, coalizões pragmáticas e projetos de conciliação, perde espaço diante da radicalização dos discursos. Com diferenças de intensidade e peculiaridades nacionais, o continente parece caminhar sobre uma corda esticada entre dois polos. O equilíbrio tornou-se exceção. A confrontação, regra.
Suriname, Belize e República Dominicana podem ser ainda apontados como exemplos de sistemas políticos em que sobrevivem espaços de maior pragmatismo centrista. Mesmo nesses países, porém, as classificações ideológicas exigem cautela. No restante da região, a disputa entre forças de esquerda e direita ocupa o centro da cena, embora nem todos os governos possam ser acomodados rigorosamente nessas duas gavetas.
O fenômeno não nasceu ontem. Suas raízes mergulham na história de uma região marcada por desigualdades sociais, concentração de renda, instabilidade institucional, autoritarismo e promessas de redenção popular. Durante o século XX, a América Latina experimentou ditaduras militares, revoluções socialistas, experiências nacionalistas, governos liberais e movimentos populistas. Mudaram os protagonistas, mas permaneceu a dificuldade de construir consensos duradouros.
A chamada onda rosa, que ganhou força no início deste século, levou ao poder lideranças identificadas com a esquerda. Hugo Chávez, na Venezuela, Lula, no Brasil, Néstor Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador, representaram, com estilos distintos, a ascensão de projetos que prometiam reduzir desigualdades e ampliar a presença do Estado. A maré avançou sobre um continente cansado das crises econômicas e das receitas de austeridade.
O movimento encontrou resistência. A direita reorganizou suas forças, incorporou novas bandeiras e passou a disputar o eleitorado com uma linguagem mais agressiva. Segurança pública, combate à corrupção, valores conservadores, liberdade econômica e rejeição às elites políticas tradicionais tornaram-se instrumentos de mobilização. O liberalismo econômico passou a conviver, em determinados governos, com o conservadorismo cultural e o personalismo político.
A Argentina de Javier Milei tornou-se símbolo dessa reação. Seu discurso contra a classe política tradicional e a intervenção estatal encontrou ressonância numa sociedade castigada pela inflação e pela perda de poder aquisitivo. Em El Salvador, Nayib Bukele construiu sua popularidade sobre a promessa de segurança, acompanhada de severos questionamentos sobre garantias democráticas. São experiências diferentes, mas reveladoras da força de lideranças que desafiam os padrões tradicionais da representação.
Do outro lado, México, Colômbia e Uruguai ilustram a presença de projetos de esquerda com histórias e características próprias. Cuba e Nicarágua, por sua vez, demonstram como a permanência de regimes autoritários não pode ser confundida com a competição democrática entre correntes ideológicas. A distinção é fundamental: esquerda e direita são categorias políticas; democracia e autoritarismo dizem respeito à natureza do exercício do poder.
O Brasil ocupa posição singular nesse cenário. Maior país da região, reúne desigualdades profundas, forte diversidade territorial e um eleitorado dividido por valores, expectativas econômicas e identidades políticas. A polarização, como vimos nessa última eleição, transformou o pleito em confrontos emocionais. O adversário deixou de ser apenas concorrente para assumir, na retórica dos extremos, a figura de ameaça à pátria, à família, à liberdade ou à justiça social.
É nesse ambiente que prospera o populismo, fenômeno que não pertence exclusivamente a uma das margens ideológicas. Há populismos de esquerda e de direita. Ambos podem recorrer à mesma gramática: o povo contra as elites, os virtuosos contra os corruptos, os patriotas contra os inimigos. A simplificação substitui a complexidade. O líder apresenta-se como intérprete exclusivo da vontade popular e promete soluções imediatas para problemas estruturais.
As redes sociais – como vimos com o “Exército de Lula” e a “Tropa de Flávio” – acrescentaram combustível à fogueira. Seus mecanismos de circulação e recompensa da atenção favorecem mensagens emocionais, frases contundentes, ataques pessoais e conteúdos capazes de provocar indignação. O debate público converte-se frequentemente em espetáculo. Em vez de programas de governo, prevalecem palavras de ordem e ataques pessoais, em lugar de argumentos, insultos. A política perde substância e ganha decibéis.
Há, contudo, uma questão que atravessa todas as fronteiras ideológicas: o bolso do cidadão. A inflação, o emprego, a renda, a alimentação e o custo da moradia continuam a influenciar decisivamente o comportamento eleitoral. O eleitor pode identificar-se com uma corrente política, mas costuma cobrar resultados concretos. Quando as promessas não chegam à mesa da família, cresce a disposição para experimentar alternativas.
A alternância de governos na América Latina revela, portanto, não apenas uma guerra de ideologias, mas também um ciclo de frustrações. A esquerda promete inclusão e justiça social. A direita oferece eficiência econômica, segurança e ordem. Ambas enfrentam a distância entre a retórica eleitoral e a capacidade administrativa. Quando fracassam, alimentam a ascensão de seus adversários.
O enfraquecimento do centro constitui uma das consequências mais preocupantes desse processo. A moderação passou a ser confundida com fraqueza. A negociação, com rendição. O compromisso, com oportunismo. Entretanto, nenhuma democracia pluralista sobrevive sem diálogo, respeito às diferenças e instituições capazes de limitar os impulsos dos governantes.
Convém lembrar que a América Latina não é um bloco homogêneo. Existem governos de coalizão, partidos híbridos, lideranças personalistas e sistemas eleitorais muito distintos. Reduzir toda essa diversidade a um mapa pintado de vermelho e azul seria trocar a análise política pela caricatura. A polarização é uma tendência poderosa, mas não uma sentença geográfica.
O grande desafio latino-americano não consiste em eliminar a esquerda ou a direita. Ambas são expressões legítimas do pluralismo democrático quando respeitam as regras constitucionais. O desafio é impedir que suas divergências destruam as pontes necessárias à convivência nacional.
Entre os Andes e o Atlântico, entre o Caribe e a Patagônia, o continente continua procurando um caminho para superar suas antigas desigualdades e suas novas intolerâncias. O problema não está na existência de dois lados. Está na incapacidade de reconhecer que, entre eles, existe uma sociedade inteira.
A América Latina não precisa pensar com uma só cabeça. Precisa aprender a viver sem transformar cada diferença em uma guerra. Afinal, quando a política divide um povo em duas metades irreconciliáveis, quem corre o risco de desaparecer não é a esquerda nem a direita. É a própria ideia de nação.
(*Gaudêncio Torquato é professor emérito da USP, escritor, jornalista e consultor político)
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Postado por: Gaudêncio Torquato (*), 30 Outubro 2026 às 11:40 - em: Falando Nisso