Inverno à brasileira

Caio Kenji/G1 Reprodução
Inverno à brasileira
Manifestantes na Avenida Paulista
Por Gaudêncio Torquato, em suas "Porandubas Políticas", no site Migalhas.
 
Dia 22 de junho começa oficialmente o inverno. Mas esses dias efervescentes de final de outono mostram que o início do nosso inverno nunca foi tão quente na vida social. Depois das grandes manifestações de rua da era Collor, o país reencontra as multidões. Segunda-feira entrará no calendário nacional como um dia atípico : as massas acorreram às ruas de grandes capitais, a partir das duas maiores metrópoles, SP e Rio. O que queriam ? A liga entre os movimentos em 11 capitais - reunindo entre 250 mil a 300 mil pessoas, dependendo do olhar das mídias - foi o preço das passagens de ônibus. Mas é evidente que questões mais amplas que o precário sistema de mobilidade urbana estão em jogo. Analisemos algumas vertentes.
 
A velha política
 
Os movimentos expressam clara indignação contra as práticas da velha política. Anos e anos a fio de velhas práticas e costumes, denúncias em série envolvendo atores políticos mancomunados com máfias, grupos privados e funcionários públicos, escândalos que nunca chegam ao fim - essa é a primeira camada da argamassa que explica a insatisfação social. As multidões querem dizer que o copo está transbordando. Que o país clama por reformas de métodos, de práticas e mudança de atores. A esfera política - representantes no Congresso, Assembleias, Câmaras de vereadores, governantes de todas as instâncias - recebe um puxão de orelhas.
 
Serviços precários
 
O segundo pacote de recados embala os precários serviços públicos. A saúde está na UTI ; a educação é um caos ; a segurança pública é uma barbárie ; o sistema de transportes urbanos é uma vergonha. O crescimento das cidades não é acompanhado do crescimento - quantitativo e qualitativo - dos serviços. As filas se tornam quilométricas ; os sistemas estão estrangulados ; as aflições cotidianas se acumulam. Em SP, um trabalhador passa uma média de 4 horas (alguns até mais) para ir e voltar do trabalho. A saturação dos serviços públicos expande o clamor das turbas.
 
A faísca
 
A massa mostrou, ainda, que, em nossos tempos de comunicação eletrônica pelos sistemas montados na internet, não há mais necessidade de grandes líderes para fazer a chamada geral. Esta é feita por uma pessoa, por duas ou dez, usando as redes sociais. Os grupinhos promovem intercomunicação, que se propaga, gerando núcleos em série. Acende-se, assim, uma faísca que se irradia rapidamente pelas redes, pegando as fogueiras armadas - os grupamentos organizados - por todo o território.
 
Abertura da locução
 
As manifestações traduzem, ainda, a vontade social de expandir sua locução. Há muitos gritos presos nas gargantas. Há demandas reprimidas. A metáfora é a da panela de pressão : se não houver uma válvula que permita soltar o vapor, a panela explode. As manifestações funcionam como válvula de pressão. Ao ganhar as praças, a galera vai de encontro ao respiro social.
 
Democracia participativa
 
Sob outro prisma, enxerga-se na mobilização da massa um sinal de que a democracia participativa encontra espaço para se manifestar. E qual a razão ? A crise que assola a democracia representativa. Norberto Bobbio já avisara : a democracia não tem cumprido seus clássicos compromissos : o acesso à Justiça ; combate ao poder invisível ; educação para a cidadania ; transparência dos governos, etc. As representações políticas em todas as instâncias frustram expectativas. Os políticos são execrados. Cria-se um imenso vácuo na sociedade. Que é ocupado por uma miríade de entidades. A democracia participativa - direta - surge nesse bojo, resgatando a forma original - as reivindicações do povo na Ágora, a praça central de Atenas.
 
E o futuro?
 
O que poderá ocorrer doravante ? A chama esta acesa nos altares da pátria. Pronta a ser usada em caso de demandas reprimidas. Do ponto de vista imediato, os Poderes terão de dar algumas respostas, algumas de caráter pontual, como a tarifa zero para as passagens de ônibus ; outras, de forma mais global, como políticas efetivas nas áreas de segurança e saúde, por exemplo. Se a economia entrar em parafuso, afetando a equação BO+BA+CO+CA, a panela tende a deixar escapar muito vapor. Como se recorda BO (bolso) cheio (geladeira cheia) resulta em BA (barriga) satisfeita, CO (coração) agradecido e CA (cabeça) disposta a agradecer e a votar no formulador da equação. A recíproca é verdadeira. Imagine-se a panela estourando nas margens das eleições.
 
Partidos, tchau!
 
Partidos políticos até podem desfraldar suas bandeiras nas passeatas. Mas há muitas placas levantadas com os dizeres : nenhum partido me representa. Há uma clara mensagem de aversão aos partidos políticos. PSOL, PCO e PSTU são as três siglas que tentaram exibir suas bandeiras. E a velha UNE também está fora do circuito das massas."


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Postado por: Marco Eusébio, 19 Junho 2013 às 10:35 - em: Principal


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