Campo Grande, Quinta-Feira , 19 de Outubro - 2017


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Falando Nisso

Autor: Wagner Cordeiro Chagas (*) , 18 Outubro 2017 às 12:45 - em: Falando Nisso

Uma curiosidade nascida nos bancos escolares pode mudar para sempre a vida de um estudante. Foi o que aconteceu comigo. No ano de 2002, quando cursava o 2º do ensino médio na Escola Estadual Izabel Mesquita, da cidade de Fátima do Sul, minha turma participou de um projeto de pesquisa, as saudosas aulas de projeto, política da Secretária de Educação da gestão Zeca do PT. Naquela empreitada, professores, coordenação, direção escolar, funcionários administrativos e comunidade uniram-se para nos auxiliar nos trabalhos que deveríamos fazer a respeito da história de Mato Grosso do Sul. Lembro-me que o grupo do qual participei ficou responsável por tratar da temática dos governadores deste estado. O resultado foi excelente e para mim algo que despertou curiosidade pela história política estadual, além de me levar a ter uma visão diferenciada da política e suas dinâmicas.
 
Ao longo daqueles meses de aulas e pesquisas entrei em contato com duas referências bibliográficas a respeito da história sul-mato-grossense. A primeira, um livro, do pesquisador Hildebrando Campestrini, “História de Mato Grosso do Sul”, e a segunda, um texto da historiadora Marisa Bittar, intitulado “Uma Breve História de Mato Grosso do Sul (1977-1999)”.
 
Naquele mesmo ano, um evento marcou minha vida e meus ideais: as eleições gerais no País. Eu já havia participado, aos 16 anos de idade, de uma eleição municipal, a do ano 2000. No entanto, 2002, foi quando dei meu primeiro voto para os cargos de presidente, governador, deputado federal, deputado estadual e senador. Fiquei encantado pelos ideais de esquerda moderada do PT e votei em 4 candidatos do partido: entre eles Lula para presidente e Zeca para o governo.
 
Poder participar daquele momento histórico da chegada de um operário e retirante nordestino ao cargo máximo do Brasil foi sensacional. A partir daquele momento estava decidido a participar das discussões políticas, pesquisar, ler mais a respeito. Gostava muito de conversar com seu Toinzinho, um vizinho, trabalhador rural, com uma história de luta e muitas esperanças de um Brasil justo para todos os seus filhos. Tudo isso associado às minhas origens humildes, filho de proletários urbanos, levaram-me a inclinar pelos ideias de esquerda moderada, onde pude acreditar ser possível melhorar a vida dos mais humildes, dos excluídos de uma nação, sem necessariamente derrubar um sistema, confiscar propriedades particulares ou implantar ditaduras sanguinárias em nome de um ideia.
 
No ano de 2005 veio o ingresso no curso de Licenciatura em História da então UFMS de Dourados, atual UFGD. Lá pude encontrar novos caminhos para a pesquisa histórica, e o que é mais importante aprender a pesquisar de fato, seus métodos, seus teóricos, as dificuldades e as satisfações de ter uma pesquisa concluída, publicada, compartilhada. Entrei em contato com o Centro de Documentação Regional da Faculdade de Ciências Humanas (CDR-FCH/UFGD), local de riquíssimo acervo sobre diversos aspectos de Mato Grosso/Mato Grosso do Sul, como jornais, fotos e livros.
 
Iniciei as primeiras pesquisas em 2007, quando passei a conviver com documentos oficiais do Estado, como as Atas da Assembleia Legislativa e os Relatórios dos Governadores de Mato Grosso do Sul, além do acervo dos jornais O Progresso, Correio do Estado, Diário da Serra e Diário MS. Aos poucos essas pesquisas levaram a outras, até culminar na minha pesquisa de maior amplitude: o trabalho de mestrado, defendido em 2014, referente à primeira eleição direta para governador de nosso estado, ocorridas no ano de 1982. A pesquisa esteve sob orientação de um baita intelectual e meu grande amigo Paulo Roberto Cimó Queiroz.
 
Encerrado o período de 9 anos na universidade continuo inspirado e com desejos de conhecer melhor a respeito de nosso estado. Devido a isso, iniciei em abril deste ano uma série de artigos a respeito das características de cada administração sul-mato-grossense. É importante ressaltar a necessidade de se conhecer nossa história política, pois os processos políticos influenciam na vida de todos nós cidadãos. Nestes textos procuro mostrar a participação não apenas dos gestores nos destinos do estado, mas também da nossa população.
 
Assim, pretendo continuar a colaborar com a produção de conhecimento sobre a história política de Mato Grosso do Sul e se possível despertar a curiosidade de outros estudantes como ocorreu comigo. Nestes 40 anos de criação desta unidade federativa é importante também que as autoridades políticas reforcem seus compromissos com a educação para proporcionar o despertar da curiosidade em todos os nossos estudantes e com isso formar cada vez mais uma geração de cidadãos e cidadãs que vejam os estudos não apenas como meio de satisfação profissional, mas também como caminho da construção de uma sociedade mais justa e humana.
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)



Autor: Rosemeire Farias (*) , 14 Outubro 2017 às 14:30 - em: Falando Nisso

Hoje parei para refletir sobre esta data, 15 de outubro, dia em que se comemora o "Dia do Professor".
 
Muitos pensamentos passaram pela minha mente, porque, afinal, já estou na docência há 25 anos.
 
Vi muitas pessoas ingressarem nesse mundo, acreditando que conseguiriam reinventar a roda. Todavia, diante dos obstáculos, vi-os retroceder e desistir da carreira.
 
Eu continuo firme, recuso-me a deixar-me vencer pelas dificuldades e desilusões. A principal delas é a falta de reconhecimento de uma significativa parcela da sociedade, que parece pensar que qualquer um pode ser professor, que qualquer um sabe opinar e discutir sobre educação. 
 
Falo isso porque vi e vejo pessoas assumindo a função de professor para preencher o seu tempo livre e ganhar um extra. Estes, por um descuido, estão professores, não são professores.   
 
Fico triste ao me deparar com esses casos, porque para mim a docência é uma espécie de entrega. Ela envolve uma relação de amizade, de carinho, de renúncia e, sobretudo, de amor. Amor pelos livros, pelo conhecimento, pela escola, pela sociedade e pelo aluno, que é quem mais sente o resultado da "entrega do seu professor".
 
Então, não é um bico, é uma profissão que só exerce aquele que está disposto a enfrentar todos os obstáculos e as dificuldades.
 
Nunca me agarrei ao fator econômico (não que ele não seja importante), porque sempre soube que jamais ficaria rica monetariamente sendo docente. Eu sempre me agarrei à satisfação e ao sentimento de realização que tenho quando encontro um ex-aluno(a), que me abraça e diz: "Professora, não me esqueço da Senhora! A senhora foi muito importante na minha formação, ensinou-me a ver o mundo e a não retroceder diante das dificuldades. Fez-me acreditar em mim, por isso eu te amo!".
 
Alguns profissionais podem até pensar: 'que idiotice é essa da Rosemeire'. Mas não me importo com isso, porque para mim a maior riqueza que pode existir é o amor que despertamos nas pessoas. E aquele que é professor com o coração só pode despertar esse sentimento nobre em seus alunos.
 
Para mim, a educação envolve uma relação de respeito e de amor, e a escola é o cenário ideal para que isso ocorra. Não se pode perder esse propósito, porque só educamos com amor. E o professor é um herói além do seu tempo.
 
Feliz Dia dos Professores a todos os colegas!
 
(*Rosemeire Lopes da Silva Farias é professora doutora de ensino superior em Campo Grande - MS)



Autor: Amarildo Cruz (*) , 11 Outubro 2017 às 18:00 - em: Falando Nisso

Mato Grosso do Sul, quando foi criado a partir da divisão do Estado do Mato Grosso, gerou muita expectativa em relação ao seu desenvolvimento. Eu mesmo, quando cheguei aqui, em 1981, para assumir o concurso público da Secretaria de Fazenda, enxerguei o potencial do Estado pela fartura em riquezas naturais - Pantanal, Bacias Hidrográficas, mas também pela sua localização geográfica privilegiada e a diversidade cultural - várias etnias indígenas, a história da erva mate, enfim, a identidade cultural única que o Estado tem e que conta a sua história, sendo motivo de orgulho para quem vive aqui.
 
Hoje, quando fazemos um balanço dos 40 anos de sua criação, observamos que muita coisa melhorou. Atraímos investimentos, pessoas de vários estados brasileiros e de outros países, mas penso que tudo isso poderia ter sido mais intenso, principalmente se olharmos seu potencial econômico, social e cultural.
 
Tínhamos que ter um olhar especial para o desenvolvimento da Costa Leste, por exemplo, que está bem na divisa com os estados de São Paulo e Paraná. Implantar políticas de atração de investimentos e incentivos fiscais ali. Outra questão é enxergar o potencial turístico. Temos quase 70% do Pantanal em Mato Grosso do Sul, um bioma único que pode ser trabalhado no sentido de trazer a discussão da alteração do nome para Estado do Pantanal, atraindo turistas do mundo inteiro.
 
Para os próximos quarenta anos, a previsão que faço, é que devem ser exploradas em Mato Grosso do Sul questões muito importantes: a primeira, que é imprescindível, é o desenvolvimento sustentável. Será um grande desafio, com certeza, temos um dos estados mais ricos em biodiversidade do País, então é preciso trabalhar nessa questão. A outra se refere aos mananciais de água. Temos a obrigação de nos preocupar com o desenvolvimento sustentável.
 
E não podemos nos esquecer, em hipótese alguma, de olhar com atenção aos menos favorecidos. Temos que escrever uma nova história para Mato Grosso do Sul, garantindo que todo cidadão que habita esse território seja contemplado com políticas de inclusão, para que vivam dignamente, com acesso à habitação, saúde, educação e alimentação de qualidade para que esse Estado, que me acolheu quando o escolhi para construir a minha história continue sendo um lugar atraente, encantador, acolhedor e fraterno para a maioria da população que aqui vive.
 
(*Amarildo Valdo da Cruz é advogado e pós graduado em Gestão Pública, fiscal tributário estadual e deputado estadual pelo PT-MS)



Autor: Anderson Fonseca (*) , 09 Outubro 2017 às 14:30 - em: Falando Nisso

Imaginar uma casa onde robôs auxiliam, divertem e interagem com humanos é ficção científica, hoje, quando se considera a realidade econômica de um país. No Brasil, por exemplo, apesar do crescimento econômico, robôs estão apenas nas indústrias e instituições de pesquisa. Se há em ambientes domésticos, o número é bem pequeno.
 
Para mim, era um universo distante, algo apenas possível em desenhos animados. Porém, decidi vivenciar a ficção. O que me levou isso é poder responder como robôs em ambiente doméstico impactam os seres humanos e de que forma os sentimentos e a percepção sobre o robô é afetada depois de passar um tempo com ele.
 
Para responder a estas perguntas, adquiri dois robôs projetados para crianças, que simulam inteligência comportamental, já transforma nossa visão de mundo. Desde que aqui estão, inclino-me a pensar nos benefícios e problemas que podem gerar.
 
Quando o primeiro chegou a nossa casa, ficamos maravilhados. Ainda me lembro da expressão de Ana Clara, minha filha, espantada e muito animada com a máquina. Ela disse: - Pai, é um robô, um robô! Ele é tão fofo. E é verdade. Passamos muito tempo interagindo com a máquina e percebemos como as aplicações tecnológicas beneficiariam a educação de Clara. Uma delas é despertar o interesse pela língua inglesa através da conversação. A outra é interagir com a criança a partir das emoções.
 
O robô contém um LED que altera de cor para indicar suas emoções, além disso, reconhece a voz com que dialoga. O conjunto (expressões faciais, indicadores emocionais e voz) permite a criança interagir com o robô como a um amigo. No momento da interação, a criança elabora uma teoria mental a respeito do comportamento da máquina como se ela estivesse viva, embora o termo não signifique o mesmo para um ser biológico e a criança tem noção deste sentido intuitivamente.
 
Certa vez, Ana deixou o robô por muito tempo parado e o LED ficou vermelho e o rosto franziu. Ana, mal o viu assim, exclamou: - Papai, ele está bravo! - Vamos alegrá-lo. Então, passeamos com ele pela casa e logo a cor mudou para o verde e o rosto desenhou um sorriso. Ana disse: - Ele está feliz! Como me senti em relação a este episódio? Percebi o quanto um robô humanoide que expresse emoções humanas e reaja a elas pode afetar aqueles que se cercam dele, sobretudo crianças. É claro, esbocei um sorriso.
 
Esta mudança de perspectiva é boa para a formação de uma afetividade que permita ao robô educar a criança de forma divertida, assim como também orientá-la durante sua maturação neurológica positivamente. Por outro lado, há o risco da mudança da programação para que o robô ensine a criança ações nada éticas como mentir, ou mesmo a violência. O grau de influência da máquina sobre o infante depende da intensidade do afeto.
 
Por isso, o monitoramento destas máquinas pelos pais é importante. Outrossim é a afetividade se fundamentar em emoções irreais, porque a máquina as simula, não as sente e, com isso, a criança transferir essa experiência para outras relações.
 
(*Anderson Fonseca, cearense radicado no RJ, é escritor de ficção científica e fantástica, neuroeducador e autor de livros como 'Sr. Bergier & Outras Histórias')



Autor: Wagner Cordeiro Chagas (*) , 25 Setembro 2017 às 15:00 - em: Falando Nisso

Em continuidade à série sobre as administrações de Mato Grosso do Sul ao longo desses 40 anos, apresenta-se aqui a segunda gestão de Marcelo Miranda Soares. Desta vez, o governador assumiu o cargo de forma legitimada no voto popular e por outro partido: o PMDB. Marcelo que era afilhado político de Pedro Pedrossian, pertencia, desde 1982 quando se elegeu senador, a outro grupo: o de Wilson Barbosa Martins. O retorno dele ao governo se deu devido a alguns fatores. Primeiro, ser o candidato apoiado pelo ex-governador Wilson. Segundo, ter sido favorecido pelo Plano Cruzado que, ao congelar os preços no Brasil e controlar a inflação descontrolada, garantiu uma enorme popularidade ao PMDB a nível nacional.
 
Marcelo Miranda assumiu o governo no dia 15 de março de 1987, juntamente com seu vice, o político douradense George Takimoto (PFL). Era a primeira vez que um político de Dourados ocupava a função de vice-governador de Mato Grosso do Sul. Ao se eleger chefe do Executivo estadual Marcelo renunciou ao mandato de senador, cuja vaga foi ocupada pelo suplente Antônio Mendes Canale.
 
Se no primeiro mandato, entre 1979 e 1980, Marcelo não conseguiu realizar muitos de seus objetivos, desta vez ele teve quatro anos e pôde investir em diversas áreas da administração. Nesta gestão ele continuou com uma marca de seu primeiro governo, qual seja, a elevação de vários distritos à categoria de município. Tornaram-se municípios, em 1987: Chapadão do Sul, Dois Irmãos do Buriti, Juti, Paranhos, Santa Rita do Pardo, Vicentina, e, no ano de 1988, Sonora. As pesquisas demonstram que Marcelo Miranda foi o governador que mais criou município neste estado.
 
Governador pelo PMDB, Marcelo Miranda continuou com as políticas de incentivo e apoio à organização dos trabalhadores por meio do sindicato. Nesta gestão, por meio da criação da Secretaria de Trabalho, ligada ao PCB e depois ao PMDB, de acordo com pesquisas do historiador Eronildo Barbosa da Silva, foi criada a Universidade do Trabalho (UNIT), com objetivo de formar novas lideranças sindicais e comunitárias.
 
Na área da educação o governo construiu mais de mil salas de aulas. Criou-se o projeto da Universidade Latino Americana, com sede em Dourados, com objetivo de integrar Brasil, Paraguai e Bolívia no que tange ao ensino superior. Por outro lado, no trato com os professores da rede pública as coisas foram complexas. O governo experimentou, ao longo de 4 anos, 5 greves do magistério, lideradas pela FEPROSUL, devido principalmente à luta pelos reajustes salariais e atrasos nos pagamentos de salários. A longa crise inflacionária, herança da ditadura militar, corroia os vencimentos de boa parte dos servidores públicos e da classe trabalhadora em geral. Eram os tempos de planos econômicos do governo Sarney, fracassados no combate à inflação.  
 
Foi nesse governo que nasceu a Secretaria de Cultura de Mato Grosso do Sul, tendo como secretário o artista plástico Humberto Espíndola. A secretaria investiu em projetos importantes como a produção do filme "Caramujo-Flor", do cineasta Joel Pizzini, baseado na obra do poeta Manoel de Barros.
 
Em relação às obras públicas, essa gestão concluiu a pavimentação da BR-262 entre Campo Grande e Três Lagoas (distrito de Garcias); pavimentou a rodovia de Água Clara a Paranaíba; construiu o presídio de segurança máxima de Campo Grande e iniciou a construção do presídio de Dourados (hoje PED). Cinco hospitais foram construídos, além de vários quilômetros de linhas de transmissão de energia elétrica.
 
Politicamente, o governo criou em Dourados a governadoria regional, administrada pelo vice-governador Takimoto, com vistas, segundo o governo, a melhor atender as reivindicações políticas da região. No entanto, para outros, a governadoria não passou de um cabide de empregos para os correligionários políticos. Em outubro de 1987, a administração sofreu alguns desconfortos, conforme registrou a imprensa estadual na época, devido à suspeitas de irregularidades na área de comunicação do governo. 
 
A Assembleia Legislativa, em 1990, autorizou processo contra o governador. No entanto, por falta de provas, o caso foi arquivado. Em fins de 1989, Marcelo Miranda chegou a cogitar deixar o governo para candidatar-se a outro cargo, mas desistiu. Foi nesse período também que se deu, pelo Legislativo, a formulação da Constituição Estadual de 1989, já que o País possuía uma nova Carta Magna, a de 1988.
 
Ainda no ano de 1989, o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas, após 29 anos. Em Mato Grosso do Sul o governador Marcelo Miranda foi o maior cabo eleitoral do candidato do PMDB, Ulysses Guimarães. Mas, a chapa do candidato Fernando Collor (PRN), que tinha apoio do ex-governador Pedro Pedrossian, saiu vitoriosa.
 
Em 1990, o estado passou por novas eleições para governador. A administração Marcelo Miranda que começou bem, não tinha mais a popularidade do início. Não tinha também o apoio de grupos de esquerda, devido à reforma administrativa, que trocou lideranças do PCB por líderes de centro-direita. O PMDB enfraquecido não lançou a cabeça de chapa, preferiu concorrer com candidata à vice-governadora (Celina Jallad, filha do senador Wilson Barbosa Martins) na chapa de Gandi Jamil (PDT). Fortalecido ainda mais devido à popularidade do presidente Collor, Pedro Pedrossian saiu candidato pelo PTB. O PT concorreu com Manoel Bronze. Pedrossian retornou ao governo do estado, eleito no primeiro turno. 
 
No mês de agosto de 1990, o governo implantou a política de isonomia salarial para os servidores públicos estaduais. A isonomia tinha a intenção de tornar mais justa algumas distorções salariais de diferentes categorias. Contudo, pagar essa conta custou caro ao governador e a sua carreira política; e quem sofreu foram os trabalhadores. Alguns meses após pagar os valores, o estado alegava não possuir mais condições financeiras de cumprir o acordo, devido, entre outras coisas, ao Plano Collor que gerou recessão e queda na arrecadação de impostos. Como consequência disso, o funcionalismo público realizou um ato nunca antes visto em terras pantaneiras: a ocupação da Governadoria por quase um mês, entre 14 de fevereiro e 8 de março de 1991. O governador Marcelo Miranda Soares deixou a administração sem ao menos participar da solenidade transmissão do cargo para Pedro Pedrossian, no dia 15 de março de 1991.
 
No pleito eleitoral de 1994, Marcelo Miranda reatou aliança com Pedro Pedrossian. Cogitou sair candidato ao Senado e acabou concorrendo a deputado federal pelo PDT. Não se elegeu. Em 1998 e 2002 tentou, sem êxito, eleger-se à Câmara dos Deputados. Antes disso, nas eleições de 2000, disputou a Prefeitura de Paranaíba, também sem sucesso. Voltou à cena política durante o governo Zeca do PT, em 2003, indicado pelo PL de Londres Machado, como superintendente do DNIT, onde permaneceu até ser demitido, em 2012.
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)



Autor: Diego Mariano (*) , 13 Setembro 2017 às 15:00 - em: Falando Nisso

"Para a América Latina a opção é clara: integração ou atraso."
(André Franco Montoro)
 
Mato Grosso do Sul tem sido palco de discussões importantes e que deixariam orgulhoso o ex-governador paulista André Franco Montoro, tendo em vista que se fundam em ideais pelos quais dedicou a quase totalidade de sua vida pública.
 
Montoro tinha grande paixão por um tema caro a nós sul-mato-grossenses, que é a integração da América Latina, em destaque atualmente pelo projeto da Rota Biocêanica, colocado como prioridade do Governador Reinaldo Azambuja, que representará uma transformação logística e social ao Brasil, mas sobretudo ao Mato Grosso do Sul. Em outra frente, vemos o Secretário de Cultura e Cidadania de MS, Athayde Nery, promover a importante integração cultural e cidadã entre nosso estado e os países fronteiriços ao nosso território, no escopo do Festival da América do Sul-Pantanal.
 
Vimos também a Câmara Municipal de Campo Grande debater, por iniciativa dos vereadores Dr. Lívio, João Rocha e Ademir Santana, a criação de hortas comunitárias em vazios urbanos, públicos e privados, medida que, se implantada, vai garantir alimentos de qualidade, e algum incremento de renda, às famílias da capital, isso sem falar no ganho com a ocupação de espaços que hoje são problemas, e passarão a ser importantes ferramentas da construção de uma sociedade melhor.
 
Estes e outros debates são mostra da imortalidade das ideias defendidas por aquele que certamente foi um dos maiores políticos brasileiros. Em tempos tão rasos, beber na fonte do legado de Franco Montoro é inspiração para olhar o futuro do Brasil e da América Latina com otimismo.
 
Na aridez do atual debate público nacional, resgatar Franco Montoro é renovar as esperanças de que há caminho. Montoro debatia, desde as décadas de 40 e 50, questões que ainda hoje não estão resolvidas e apontava soluções ainda atuais para os problemas que vemos, como a sustentabilidade, a descentralização administrativa, os espaços para participação da sociedade, o ensino em tempo integral. Em todas estas áreas, Montoro deixou uma imensa folha de ações e mais ainda, ideias a serem implementadas.
 
Com isso, ver Mato Grosso do Sul retomando, com ações concretas, bandeiras históricas do Governador Franco Montoro é um sopro de esperança. Suas ideias permanecem ativas, pulsantes, e nelas, Montoro vive!
 
(*Diego Mariano da Silva Souza é coordenador estadual do Movimento Franco Montoro, e foi subsecretário de Políticas Públicas para a Juventude do Governo de MS)



Autor: Alan Kaká (*) , 25 Agosto 2017 às 12:50 - em: Falando Nisso

Para começar a falar em economia de livre-mercado e privatizações nós temos que primeiro pensar História, Economia e Política Internacional.
 
Esses dias em uma palestra que assisti um professor de economia pós-graduado em Havard (já que a geral gosta de um título de fora) disse que "se eu fosse um lorde inglês eu também iria querer o neoliberalismo".
 
Porque diabos ele disse isso? Ele poderia ter dito que fosse ele um industrial americano ou um "new rich" russo. Ficou no inglês. O que importa para essa expressão é: os países do centro do Capitalismo são países do centro do Capitalismo. Passaram pela acumulação primitiva, mercantilismo, primeira e segunda revolução industrial... A Rússia é outro caso, mas, tardiamente, passou por um processo de acúmulo e revolução industrial.
 
Essas etapas do capitalismo fizeram com que o livre-mercado nesses países tivesse um sentido de concorrência. Mas isso até o capitalismo financeiro. Logo volto a isso.
 
Bom, em uma economia atrasada (do ponto de vista capitalista) como a nossa, não existe livre concorrência. As condições de empreender (financiar planta fabríl, pesquisa, desenvolvimento, composição de preço, logística, etc) são deficitárias. A verdadeira livre concorrência tem por base todos os atores estarem no mesmo patamar de igualdade como afirmou o economista alemão do século XIX, Georg Friedrich List (1789-1846).                       
 
O Brasil, como é sabido, teve sua industrialização tardia e capitaneada por um estadista – no caso Getúlio Vargas. Porque? Porque nossa elite agrária se formou e consolidou em um processo de exploração mercantil do centro (metrópole) para a colônia. Seu interesse na fatia do mercado mundial sempre foi a de ganhar com a exploração dos recursos naturais "in natura" ou com pouco beneficiamento. No caso do açúcar, só havia o engenho aqui porque era impossível do ponto de vista logístico transportar tanta cana in natura para fora para ser beneficiada na Europa. Se fosse possível...
 
Voltamos ao processo de industrialização tardio e estatizado: foi preciso que a máquina estatal agisse para o Brasil tornar-se competitivo. Ainda segundo o economista Fiedrich List, em face dos países desenvolvidos, os mais atrasados não conseguem desenvolver a indústria sem a intervenção do estado, principalmente devido as tarifas protecionistas praticadas pelos países do centro do capitalismo.
 
“Por isso procuraram induzir as nações não industriais do mundo à prática de um comércio internacional fundado no regime de liberdade máxima e livre concorrência. Na realidade, sua doutrina não é a do livre-comércio, como muitos pensam, mas a doutrina do monopólio. Sob a máscara do livrecomércio queriam conquistar o monopólio da indústria para a Inglaterra. Ou alguém acredita que países de economia retrógrada poderiam competir com a economia de modernas fábricas dos ingleses?”, disse o economista em uma entrevista ao Jornal “Nação Soberana” em 1841.
 
Ao contrário do que se apregoa como mantra, o Brasil passou por um processo de industrialização dos mais dinâmicos do mundo. Quando a hoje potência da indústria automobilística, Coreia do Sul, começou sua planta fabríl na década de 70, adivinha onde eles foram buscar inspiração? Não foi na Europa ou nos EUA. Foi aqui!
 
Porque? Pois com todos os equívocos dos governos brasileiros, ainda assim a economia estatal fez com o Brasil um processo revolucionário industrial "nunca antes visto” por aqui.
 
Vale ressaltar algumas coisas: não foi preciso fazer reforma agrária de fato como se fez na Inglaterra, Itália, França... O acordo com a elite agrária era: não vamos mexer com a terra. Isso é importante para o momento em que vivemos!
Formamos uma elite industrial concentrada no sudeste em detrimento de uma elite agrária do mesma região, somadas a uma nova elite agrária também incentivada pelo Estado através da corrida para o Oeste. Essa nova elite agrária produtora das atuais commodities só existe graças ao Estado Brasileiro.
 
Portanto, nossas elites, agrária e industrial nunca tiveram problemas com um estado grande. Ao contrário. Elas são fruto deste estado e o que se estabeleceu na política foi um bipartite entre essas elites e seus representantes no governo.
 
Chegamos ao processo da ditadura civil-militar onde por civil entendesse as elites e os militares são em parte fruto destas mesmas elites e em parte subsidiados pelo pensamento estadunidenses da "América para os americanos". Não há conflito de interesses aí, pois como vimos antes, nossas elites são produto de políticas estatais e tem por interesse a primeira cadeia produtiva.
 
A indústria de ponta, de alta qualidade técnica e investimento tecnológico não floresceu no Brasil. Não houve incentivo estatal para isso, pois os países do centro do capitalismo, em especial os Estados Unidos estavam exportando indústrias da primeira e segunda fase da industrialização, inclusive maquinario de segunda mão.
 
Ao mesmo tempo em que setores estratégicos como a energia e as telecomunicações foram todos implementados pelo Estado Brasileiro, a tecnologia era de fora. Acordos entre o governo brasileiro e oligopólios internacionais garantiram Itaipu, por exemplo. Ah, mas e a Odebrecht e a Camargo Correia que executaram? Isso, executaram. O Brasil precisava de investimento em infraestrutura mínima, mesmo para receber uma indústria de segunda mão.
 
Segundo List, os países que vendem o liberalismo estão na realidade “chutando a escada” que eles mesmos subiram, que é a indústria nascente. Ao alcançar o topo, os mesmos negam aos países periféricos o direito ao desenvolvimento de uma indústria nacional.
 
O que isso tudo tem a ver com as privatizações?
 
Bom, para chegar a essa resposta temos que entender a geopolítica.                       
 
O fim da ditadura civil-militar no Brasil não se deu por causa do povo na rua. Não só. A “Guerra  Fria” estava falida. Era insustentável a manutenção de governos ditatoriais financiados pelas políticas da CIA e o mundo passava por um processo de globalização com o fim da União Sociética. Poxa, mas a ditadura no Brasil caiu antes da URSS. Bom, a Perestroika e a Glasnost consolidaram-se com a queda do Muro de Berlim em 89, ano da eleição do Caçador de Marajás, Fernando Collor de Mello no Brasil, mas a URSS vinha definhando de dentro pra fora há muito.                        
 
Veja, a própria alguma de Collor denotava o tipo de pensamento ideológico que ele carregava consigo: na administração pública do Estado haviam marajás. Isso é reflexo de governos ditatoriais, primeiro com Getúlio e depois com a ditadura civil-militar. Se não há controle social, forma-se uma plutocracia burocrata. Aconteceu isso na URSS, por exemplo. Aconteceu também no Brasil.
Relembrando, os setores de infraestrutura como logística, energia, telecomunicações e setores sociais como a educação (que não era universalizada) e a saúde a partir da constituição de 88 eram praticamente totalmente estatais.                       
 
A chegada de Collor ao governo é a chegada da negação do Estado ao governo. Por paradoxal que seja, ele representava os interesses geopolíticos dos países do centro do capitalismo que haviam adotado o pensamento de escolas político-econômicas neoliberais.
 
Lembremos: às elites brasileiras nunca interessou o desenvolvimento de indústrias de ponta no Brasil e o acordo dessas elites com as internacionais nunca passou pela instalação de infraestrutura particular no Brasil. Se tivesse esse interesse, haveriam feito lá atrás. Então porque privatizar?
A turma de Collor é a turma de Itamar e de FHC por consequência. São todos formados nas escolas neoliberais de uma forma ou de outra, ou ao menos representantes dos interesses.
 
A lógica da economia e geopolítica mundial mudou após a queda anunciada da URSS e estados fortes na periferia do capitalismo - democráticos ou ditatoriais - já não interessavam. Interessava o controle dos setores da infraestrutura estatal. Por quem? Por consórcios do capitalismo financeiro.
 
Em que momento isso acontece? É um processo. Desde a crise do petróleo de 1970 os grandes capitalistas internacionais passaram a "diversificar" investimentos, retirando o aporte de dinheiro da produção e passando para a especulação financeira, ou o rentismo. Aí surge o pensamento de que investir na dívida pública é uma boa. Investir na dívida pública é o famoso "quanto pior melhor".
 
Investir também em controle acionário de infraestruturas de países do chamado terceiro mundo também é uma ótima! Para isso é preciso tirar essa infraestrutura das mãos dos Estados e para tanto é preciso convencer que estes Estados não tem capacidade administrativa. Não era difícil fazê-lo. Estes Estados não tinham capacidade de investimento na melhoria destes serviços, pois, ao exemplo do Estado Brasileiro, não tinham indústrias de ponta que demandassem e financiassem, seja através de investimento direto em parcerias público-privadas, seja através de impostos, tais melhorias.
 
Os serviços estavam e estão sucateados. A administração pública não dá conta de implementar melhorias - e aqui cabe um adendo: não por ineficiência, mas por vontade política. Não é a preocupação. 
 
O mesmo se dá com a reforma agrária que falamos lá atrás. Não é interessante para as elites que se  beneficiam da primeira parte da cadeia produtiva. Chegamos as commodities. Elas foram o "motor da economia" na primeira década do século XXI no Brasil porque o preço delas no mercado internacional estava elevado, mas também porque não somos competitivos em outras áreas. E isso porque não interessa às próprias elites. Elas controlam todo o Estado Brasileiro. O tiro no pé está aí. 
 
Voltando a Fist: “nenhum país deve abrir mão de um projeto de desenvolvimento de médio e longo prazo que vislumbre a industrialização de sua economia. Produzir batatas e trigo para importar camisas e máquinas do estrangeiro nunca pode ser uma alternativa interessante no longo prazo, ainda que esse seja o meio mais fácil do país conseguir essas mercadorias mais sofisticadas no curto prazo”, (Jornal “Nação Soberana”, 1841).
 
Seja por servidão ao centro do capitalismo, seja por imediatismo, seja por essas mesmas elites terem também migrado o investimento dos seus lucros na "diversificação" (leia-se "financeirização"), que não há indústria de ponta e não há modernização de infraestrutura e serviços. Logo, privatizar fica palatável.
 
Mas - sempre tem um mas! - não somos um país com condições de competitividade internacional porque não desenvolvemos industria de ponta, uma vez que nos ancoramos na produção de commodities como “motor da economia”. Portanto, quem investe na privatização são consórcios internacionais do mercado financeiro que tem por único objetivo o rendimento de seus investimentos. Tanto na privatização da infra, quanto na da dívida galopante do Brasil.
 
Se os impostos aqui são considerados altos é por uma política liberal e não o contrário. Não é o Estado que é inchado, é a dívida e o rentismo que vive dela que são grandes demais. Quase 50% da arrecadação brasileira (leia-se impostos) vão para o pagamento da dívida. Não há interesse em auditar essa dívida pois as elites nacionais e internacionais lucram sobre os juros da dívida e não há imposto progressivo no mesmo sentido. Quem financia isso são os pobres e a classe média, enquanto o lucro e as grandes fortunas não pagam imposto. 
 
O latifúndio também não paga sobre o lucro, mas sobre a terra nua. A base de cálculo do imposto sobre a propriedade territorial rural (ITR) é o valor da terra sem qualquer tipo de benfeitoria ou beneficiamento (inclusive plantações), ou seja, é o valor da terra nua. Cabe ao proprietário rural lançar o valor de sua propriedade no ITR, ou seja, ele paga em cima daquilo que declara (!). Segundo o estudo divulgado pelo Ipea, o valor pago pelos donos de terras no Brasil foi de apenas R$ 300 milhões em 2006.
 
Com a crise dos commodities a elite agrária investe não em produção, mas em rentismo. A elite industrial a mesma coisa. Estão migrando investimentos para o mercado financeiro. Já o mercado financeiro mesmo especulativo precisa investir aporte em algo físico. Que tal investir em infraestrutura nova? Dá trabalho e paga imposto. Do imposto eles só querem o lucro da dívida que eles também compram.
 
Então qual a solução? Para eles, o título deste artigo:
 
Privatizar a infraestrutura precária existente e lucrar com o atraso!
 
Entendem porque não dá pra comparar com os países do centro do capital? Lá a indústria de ponta força o investimento estatal e privado em infraestrutura, ciência, tecnologia e serviços. O parque é modernizado conforme a demanda e os Estados dão as condições competitivas necessárias.
 
Entendeu porque o professor formado em Harvard disse que se fosse um lorde inglês também seria neoliberal?
 
Detalhe: esse professor é o Ciro Gomes e não um esquerdista-bolivariano.
 
(*Alan de Farias Brito, o Kaká, é jornalista e trabalha como analista em Social Media. Milita desde os 16 anos em movimentos de juventude e de democratização da comunicação)



Autor: Wagner Cordeiro Chagas (*) , 24 Agosto 2017 às 10:15 - em: Falando Nisso

Em continuidade aos artigos sobre os governos de MS, ao longo desses 40 anos, chega-se à descrição das características do governo de Ramez Tebet, o primeiro caso de vice-governador que assumiu o mandato do titular para encerrar o período de mandato neste estado. Ramez era vice de Wilson Barbosa Martins, o qual, como já foi apresentado no texto anterior, renunciou ao governo para concorrer a uma vaga de senador nas eleições de 1986.
 
Nascido em Três Lagoas, no ano de 1936, Ramez Tebet era promotor de Justiça e, em 1975, ingressou na política como prefeito nomeado do município de Três Lagoas. No período da ditadura militar localidades que possuíam usina hidrelétrica, como é o caso de Três Lagoas, os prefeitos não eram eleitos, pois os municípios eram classificados como área de segurança nacional.
 
Pertencente à Arena (partido de sustentação da ditadura), elegeu-se deputado estadual em 1978, na primeira eleição para o parlamento de sul-mato-grossense. No ano de 1979 afastou-se da função por dois meses para assumir a Secretaria de Justiça do governo Marcelo Miranda (Arena-PDS/1979-1980). Em 1980, Ramez filiou-se ao PMDB e no ano de 1982 foi escolhido por membros do partido candidato a vice-governador.
 
Ramez Tebet foi empossado governador no dia 14 de maio de 1986 e concluiu diversas obras iniciadas por Wilson Martins. No entanto, seu mandato “tampão” não foi apenas para finalizar a gestão iniciada em 1983. A administração Ramez inovou ao criar pela primeira vez aqui um programa de premiação para o contribuinte que exigisse nota a fiscal no ato de compra, uma forma de ajudar o governo no combate à sonegação fiscal. Era o FISCA – Fiscal da Nota Fiscal. Nasceu também o programa de rádio 15 Minutos com o Governador, onde o chefe do Executivo estadual apresentava as ações da gestão à população.
 
O governo Ramez Tebet precisou tomar medidas enérgicas quando o governo federal (José Sarney - PMDB) criou o Plano Cruzado, utilizando o congelamento de preços como metodologia para o combate à inflação galopante. Com isso, muitos produtos começaram a faltar no País, como, por exemplo, a carne bovina. Vários produtores de carne não aceitavam vender o produto a um preço congelado e tabelado e por isso diminuíam o abate ou levavam o gado para ser abatido e vendido em outros estados. De acordo com o autor Castilho Coaraci, autor de uma biografia sobre Ramez Tebet, o governador autorizou o fechamento das fronteiras com outros estados para evitar isso.
 
Em termos de obras públicas, esta administração concluiu a construção de 25 escolas estaduais, o estádio Douradão (Dourados) e o anel rodoviário de Campo Grande. Lançou a construção do quartel do Corpo de Bombeiros de Fátima do Sul e do terminal rodoviário de Mundo Novo. Fez a conclusão da pavimentação da BR 060, entre Bela Vista e Jardim. Na área energética estendeu em mais de 400 km as linhas de transmissão para os municípios de Cassilândia, Paranaíba, Aparecida do Taboado, Inocência e Selvíria.
 
Ainda conforme Castilho Coaraci, na saúde criou-se o Saúde Nota 10, programa iniciado em 5 municípios e que garantia tratamento dentário às crianças matriculadas nas escolas estaduais. O governo também foi responsável pela aprovação da Lei 661/86, a qual efetivou cerca de 20 mil funcionários públicos do quadro de Mato Grosso do Sul que não tinham alguns direitos garantidos, como a estabilidade no emprego.
 
Politicamente, Ramez Tebet teve papel relevante na campanha do PMDB ao governo, no pleito de 1986. O partido tinha como candidato o então senador e ex-governador nomeado Marcelo Miranda Soares. Era a Aliança Democrática, formada principalmente por PMDB e PFL. Também concorreram ao governo o ex-prefeito de Campo Grande, Lúdio Coelho (PTB), e o economista e professor universitário Luis Landes Pereira (PT). 
 
Numa eleição marcada nacionalmente pela influência do Plano Cruzado, que por alguns meses segurou a inflação e fez os trabalhadores brasileiros respirarem um pouco aliviados, o PMDB venceu em 22 dos 23 estados existentes naquela época. Mato Grosso do Sul seguiu o mesmo caminho e elegeu Marcelo Miranda. Após o governo, Ramez Tebet foi superintendente da SUDECO. Elegeu-se senador pelo estado em 1994 e 2002. 
 
Entre junho e setembro de 2001 foi ministro da Integração Nacional do governo Fernando Henrique (PSDB/1995-2002). No mês de setembro de 2001 foi eleito presidente do Senado Federal, após a renúncia do então presidente Jader Barbalho (PMDB-PA). Faleceu no final de 2006, vítima de câncer. 
 
Em 2014, a herdeira política de Ramez, sua filha Simone Tebet, foi eleita senadora por Mato Grosso do Sul, pelo PMDB.
 
(*Wagner Cordeiro Chagas é professor-mestre de História em Fátima do Sul - MS e autor do livro As eleições de 1982 em MS - Life Editora 2016)



Autor: Odilon de Oliveira (*) , 15 Agosto 2017 às 17:45 - em: Falando Nisso

A saúde é um dos três compartimentos da seguridade social, pregando a Constituição Federal ser direito de todos e dever do Estado e podendo ser livre à iniciativa particular. A saúde pública é prestada através de um sistema único, chamado SUS, envolvendo a União, os Estados, o Distrito Federal e todos os Municípios.
 
Isso significa dizer que o orçamento de cada um desses entes públicos deve destinar certo percentual para a saúde. O empregador, as empresas e o trabalhador também pagam, e muito.
 
Recentemente, visitei a Santa Casa de Campo Grande, onde proferi palestra sobre o tema. Na ocasião, o presidente Esacheu Cipriano Nascimento, acompanhado por um médico, levou-me a todos os setores. O ambiente passava por grandes reformas, inclusive se adaptando para receber novos equipamentos.
 
Essa unidade central de saúde, que, cada dia mais, recebe pacientes de todos os municípios, estaria sendo contemplada com os recursos necessários para essa gigantesca e crescente demanda? Essa demanda irá continuar crescendo não só em Campo Grande, mas em todo o território nacional.
 
O Brasil não cumpre seu dever constitucional de criar e executar políticas sociais e econômicas para redução de risco. Isto é, não há política séria de prevenção, bastando dizer que o programa de proteção materno-infantil anda se arrastando pelo chão.
 
As unidades descentralizadas de saúde, no Brasil, viraram um caos. São, em média, onze mil habitantes por cada posto de saúde. A cada médico do SUS toca um grupo de 737 habitantes sem plano de saúde. Tem jeito?
 
O presidente da Santa Casa de Campo Grande (MS) e o prefeito Marquinhos têm culpa? Claro que não. Nem tudo dependente deles.
 
Por fim, você sabia que o dinheiro da roubalheira daria para construir, todo ano, hospitais, já equipados, com 732.000 leitos, passando de dois para seis leitos para cada grupo de mil habitantes? O Brasil seria equiparão aos melhores países da Europa na área da saúde pública.
 
(*Odilon de Oliveira é juiz titular da 3ª Vara Criminal da Justiça Federal em Campo Grande MS)



Autor: Pedro Lima (*) , 11 Agosto 2017 às 15:20 - em: Falando Nisso

Diante dessa maior crise econômica, social, moral e política que o país atravessa, não tem como o governo tentar tirar apenas do lombo do trabalhador brasileiro, com reformas como da Previdência, Trabalhista e a Terceirização, a solução para os nossos problemas. O momento é propício sim para que não só o governo, mas os três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) cortem a própria carne acabando com mordomias, privilégios e gastos excessivos que oneram e muito os cofres públicos.
 
Nas últimas semanas a ONG Contas Abertas divulgou dados que não foram contestados por nenhum dos poderes e que são simplesmente estarrecedores devido aos vultuosos valores que representam em regalias e exageros financeiros pagos pelo povo brasileiro para uma minoria. Os números ganharam as manchetes dos maiores veículos de comunicação do país, mas, infelizmente, parecem ter caído no esquecimento público.
 
Vamos a alguns desses dados divulgados e que precisam se tornar de conhecimento público geral para que a população possa cobrar com mais firmeza e determinação para mudar. Nosso legislativo é o mais caro do mundo, afirma a ONG. Veja o por quê: O minuto trabalhado nesse poder tem o custo médio de R$ 11.545,00. No Senado, por exemplo, cada um dos 81 senadores não custa menos que R$ 33 milhões/ano, enquanto o custo de cada um dos 513 deputados federais é de R$ 6,6 milhões/ano.
 
Juntando a média do que recebem deputados federais e senadores no Brasil, chega-se à triste (para o cidadão) soma de R$ 10,2 milhões/ano. Para se ter ideia do quanto esses valores são astronômicos, exagerados e imorais, na Itália essa média é de R$ 3,9 milhões; França, R$ 2,8 milhões; Argentina, R$ 1,3 milhão e na Espanha, apenas R$ 850 mil.
 
Em Brasília, cada deputado distrital não sai por menos de R$ 10 milhões/ano e vereadores do Rio e São Paulo, por exemplo, R$ 5 milhões.
 
O Poder Executivo por sua vez possui 28 ministérios e 151 empresas estatais, que poderiam sofrer uma necessária, drástica e urgente redução pelo bem do país. Mais enxuto, o governo poderia se dedicar mais e melhor em outras áreas prioritárias para o povo brasileiro como na sáude, na educação e na infraestrutura urbana.
 
Inchado e gordo como está o Governo não tem condições de se sustentar e por isso se vê obrigado a partir para cima do lado mais fraco: o trabalhador brasileiro. É ele quem paga a conta, pois o governo não tem peito e nem coragem para enfrentar o poderio das grandes empresas, dos bancos, que acabam sendo privilegiados com isenções tributárias e outras regalias, além de financiamento de dinheiro público à vontade. E olha que nem entraremos na questão corrupção.
 
E nosso Judiciário? Há muita “gordura” ali que precisa ser cortada, extraída, extirpada! Vejam por exemplo os juízes que têm férias anuais de quase 60 dias e entre outras questões e regalias há ainda o famigerado e inconcebível “Auxílio Moradia” que é pago para juízes, promotores e procuradores, mesmo àqueles com imóvel próprio nas cidades onde trabalham.
 
Pensam que é pouco esse auxílio? Insignificante? Então vejam a conta: de 2015 até hoje, segundo dados da Associação Contas Abertas, só com esse auxílio já foram gastos  mais de R$ 4 bilhões. Isso mesmo! Mais de qua-tro  bi-lhões de reais, de dinheiro público que poderiam ser usados em remédios, livros e melhores escolas por este grande e semianalfabeto Brasil. Um País em que as autoridades parecem não ter o menor interesse de que as pessoas sejam estudadas, instruídas.
 
Certamente essa deve ser uma estratégia daqueles que detêm o poder: impedir que o povo se desperte (por intermédio da educação) e se levante contra esse estado de coisas que se revela por esses números e valores, que são apenas a ponta do “iceberg” das coisas erradas e absurdas que predominam no Brasil, sustentadas pelo povo brasileiro, sem seu aval, sua autorização.
 
Então, Governo (3 Poderes), não venha falar em crise, reformas e aumento de preços e impostos para o povo brasileiro sem antes fazer esses cortes na própria carne, para que o País rume, de fato, a caminho do Progresso e do Desenvolvimento, com o apoio popular.
 
(*Pedro Lima é presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio de Dourados e da Fetracom-MS, filiados à Força Sindical)