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A morte de Maikon

Por: Marcos Alex Azevedo de Melo(*)

04 de Janeiro - 2012

No sopé da montanha em que se transformou o lixão de Campo Grande no dia 30 de dezembro passado, escavadeiras com suas garras de gancho executavam movimentos monótonos para quem está habituado a esse trabalho. Num sobe e desce lento, seus braços mecânicos procuravam no interior daquela gigantesca massa de detritos a céu aberto algo diferente da sua penosa missão diária de amontoar, revolver e manipular as toneladas de lixo despejadas pela grande, rica e progressista cidade.

 
As garras mecânicas das máquinas e os olhos ansiosos de seus operadores procuravam um menino de nove anos, que mais de 20 horas antes havia desaparecido no meio daquela montanha. Maikon, filho de um pedreiro e de uma dona de casa, tinha sido engolido pela pirâmide de lixo urbano.
 
Naquele momento de tamanha perplexidade, entre os ecos surdos da multidão que se aglomerou no local – familiares, amigos, vizinhos, repórteres, bombeiros, Defesa Civil – era possível ouvir murmúrios de uma teimosa esperança, a torcida por final feliz com a possibilidade de Maikon ser encontrado ainda com vida. Outra expectativa girava em torno da remota possibilidade de que o menino estivesse longe daquele lugar, fugidio para livrar-se da dura reprimenda da sua humilde família à sua malograda aventura.
 
Porém, essa última esperança, nobre sentimento que nos acompanha em todas as fases da vida, particularmente arraigado e incrustrado na consciência dos brasileiros – e está aí o ufanismo do lema “sou brasileiro, não desisto nunca” – foi desfeita quando a busca acabou com o resgate do corpo da criança, já em fase de decomposição. Era a forma dura e impositiva com que a realidade, adversária frontal do otimismo, se mostrava.
 
A realidade estava ali revelando ao mundo sua necessária, insensível, única e exclusiva razão de existir, que é a de contrariar sonhos e devaneios. Ao lado do corpo inerme de Maikon estava o seu jazigo provisório, o próprio lixão. E ainda, ao lado do lixão, a sua penúltima morada, o Bairro Dom Antonio Barbosa, uma das comunidades mais carentes da periferia da cidade, destas que ainda existem aos montes em terra brasilis, sem qualquer perspectivas. Diante de um cenário tão fértil e pleno e na esteira dessa triste combinação envolvendo o ser humano-lixo-dependência, o resultado não poderia ser outro: a realidade goleou impiedosamente o otimismo.
 
A brutalidade da morte de Maikon sensibiliza e se faz maior por ele ser apenas um menino, por ter ocorrido tragicamente em um lixão que funciona há décadas a céu aberto em uma cidade rica e progressista, por ocorrer em uma época em que os adultos, pela tradição religiosa e em função dos efeitos do espírito natalino, costumam presentear as crianças do mundo todo. A tragédia veio contrariar esse espírito. Oferece um retrato frio de que ainda precisamos percorrer uma longa e desafiadora estrada na busca da justiça social. Para enxergar isso, obviamente não seriam necessários mártires inocentes nem a existência de mãos esfomeadas à procura de restos de comida, de brinquedos e de sonhos nos lixões a céu aberto espalhados Brasil afora.
 
É este um dos retratos reais e atuais de um Brasil que se diz moderno, mas que não consegue alfabetizar de maneira correta as suas crianças e que não consegue estender o tratamento sanitário adequado a milhões de brasileiros; que produz incentivos fiscais para impulsionar a economia estimulando a sociedade ao consumo, mas não consegue dar uma solução definitiva para a questão dos resíduos e do lixo urbano. São contradições das quais emerge o desequilíbrio de valores que dói na consciência das pessoas do bem.
 
Maikon morreu e o seu triste exemplo ficou. O que estamos fazendo pelas nossas crianças é muito pouco. Não é apenas a sua singular morte no lixão de Campo Grande que nos dá esse veredito. Esta realidade se manifesta nas constantes tragédias ocorridas nas encostas dos morros, nas favelas, nas cracolândias que funcionam também a céu aberto e na dolorosa ciranda dos moradores de rua.
 
O corpo de Maikon teve dois sepultamentos. Um provocado pela avalanche do consumismo desenfreado, outro pela histórica marca da exclusão e desigualdade social, que, insaciável, continua devorando e mutilando vidas pelo País. A menos que não seja transformada radicalmente esta realidade, novos Maikons estão por surgir.
 
(*Marcos Alex Azevedo de Melo é vereador, líder da bancada do PT, presidente da Comissão de Segurança Publica e mmembro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara de Campo Grande)

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